sábado, 19 de agosto de 2017

“A Revolta dos Dândis” (RCA, 1987), Engenheiros do Hawaii


Com o seu álbum de estreia, Longe Demais das Capitais, o power trio gaúcho Engenheiros do Hawaii teve uma razoável visibilidade no cenário do rock brasileiro em 1986. O álbum teve mais de 100 mil cópias vendidas e conseguiu emplacar os hits “Toda Forma de Poder” e “Segurança”. Mas em meio ao modesto sucesso, a banda passou por algumas transformações. A primeira foi a saída do baixista Marcelo Pitz, que por motivos particulares, deixou a banda. A saída de Pitz motivou um reordenamento de funções na banda. O guitarrista Augusto Licks, músico que já havia feito parte da banda do cantor gaúcho Nei Lisboa, entra para a banda, enquanto que Humberto Gessiger, antes guitarrista, assumiu o baixo, mas manteve-se como vocalista.

A mudança nos Engenheiros do Hawaii não ficou restrita apenas na formação da banda, o som também mudou. O trio gaúcho abandou a sonoridade pop com influência da new wave do primeiro álbum optando por uma musicalidade calcada no folk rock, com referências de bandas do gênero das décadas de 1960 e 1970, e dando ênfase ao uso da harmônica e dos violões. Com a chegada de Licks, um músico mais cerebral e técnico, o som da banda ganhou em qualidade e maturidade.  A aproximação da banda com o folck rock abrirá caminho para ela flertar com o rock progressivo nos álbuns seguintes.  Todas essas características musicais estão presentes em A Revolta dos Dândis, segundo álbum do trio gaúcho.

Primeira formação dos Engenheiros do Hawaii, da direita para esquerda:
Humberto Gessinger, Carlos Maltz e Marcelo Pitz.

O título do segundo álbum reflete a influência da filosofia existencialista do filósofo e ensaísta francês, Albert Camus (1913-1960) nas letras da banda naquele momento, sobretudo, em Humberto Gessinger, autor da maioria das letras do trio. A Revolta dos Dândis  foi baseado no título de um capítulo de um ensaio de Camus, intitulado O Homem Revoltado. Jean-Paul Sartre (1908-1980) é outro filósofo francês existencialista que exerce influência no conteúdo das letras de algumas canções do álbum.

A presença da literária e filosófica se percebe no refrão do folk rock “A Revolta dos Dândis I”, primeira faixa do álbum que diz: “Eu me sinto um estrangeiro / Passageiro de algum trem / Que não passa por aqui / Que não passa de ilusão”. Gessinger teria se inspirado no livro “O Estrangeiro”, de Albert Camus. “Terra de Gigantes”, balada folk sobre a angústia e os dilemas de se chegar à vida adulta, ficou famosa pela frase “A juventude é uma banda numa propaganda de refrigerantes”.

“Infinita Highway” apresenta mais uma citação filosófica e literária através da frase “A dúvida é o preço da pureza” empresta do conto “A Infância De Um Chefe”, presente no livro O Muro, de Jean-Paul Sartre. A música parece estabelecer uma conexão literária filosófica entre o existencialismo de Sartre e os ideais de liberdade da Geração Beat. Teria a infinita highway dos Engenheiros do Hawaii algum grau de parentesco com a On The Road do escritor beat Jack Kerouac (1922-1969)?

Albert Camus e Jean-Paul Sartre: influências filosóficas e literárias em A Revolta dos Dândis.
“Refrão de Bolero” tem um começo lento, mas ao seu final, termina com solos distorcidos da guitarra de Licks e a bateria vigorosa de Maltz. Curiosamente, essa música só veio a fazer sucesso somente em 1991, durante a turnê do álbum O Papa É Pop (1990). “Filmes De Guerra, Canções De Amor” traz como destaque a bateria de Maltz e a guitarra de rock de Licks solando sobre uma forte base percussiva de samba. 

O folk rock “A Revolta dos Dândis II” é uma continuação da faixa de abertura do álbum. A música se encerra com sinais de código morse que servem de elo de ligação com a faixa seguinte, “Além Dos Outdoors”. Solidão é o tema central de “Vozes”, enquanto que “Quem Tem Pressa Não Se Interessa” é mais uma faixa que faz referência à obra de Sartre, desta vez ao livro O Ser E O NadaO rock “Desde Aquele Dia” traz o amor romântico em sua letra e que poderia cair muito bem numa balada. “Guardas Da Fronteira” encerra o álbum, num dueto entre o vocalista Humberto Gessinger e o cantor gaúcho Júlio Reny, numa participação especial.

Formação consagradora, de cima para baixo:
Humberto Gessinger, Carlos Maltz
e Augusto Licks.
Com produção de Reinaldo B. Brito, que havia produzido o primeiro álbum da banda, A Revolta dos Dândis deixou os executivos da RCA céticos e preocupados com potencial comercial do álbum, julgando-o “difícil” para a compreensão do público. “Infinita Highway” com seus seis minutos de duração, seria para os executivos, longa demais pra tocar no rádio. Eles achavam também que o mesmo aconteceria com “Terra De Gigantes” que não tinha bateria, mas na finalização da produção, acrescentaram uma curta virada de bateria.

Mas a persistência da banda em não dar ouvidos aos executivos da gravadora deu certo. O álbum de conteúdo “difícil” agradou o público.  A Revolta dos Dândis superou as expectativas, emplacando “Infinita Highway”, “Terra De Gigantes”, “A Revolta dos Dândis I” e “Refrão de Bolero”, que ajudaram o álbum a vender mais de 230 mil cópias. A capa de cor amarela de A Revolta dos Dândis inaugurava a “trilogia das cores”, baseada nas cores da bandeira do Rio Grande do Sul, verde, vermelho e amarelo. Os álbuns Ouça O Que Eu Digo, Não Ouça Ninguém (1988) e Várias Variáveis (1993), concluem a trilogia.

A Revolta dos Dândis era sucesso de público, mas alguns setores da crítica teceram duras críticas à banda, chegando a acusa-la de fascista e elitista, ante ao conteúdo filosófico e literário de algumas músicas do disco. Começava aí os embates entre a crítica e a banda que perdurariam por anos. O talento de compositor de Humberto Gessinger era sempre questionado pelos críticos com um certo tom de implicância. Por outro lado, o sucesso de A Revolta dos Dândis elevou os Engenheiros do Hawaii ao primeiro escalão do rock brasileiro, aumentando a popularidade da banda que passou a se apresentar para plateias maiores, sempre com estádios e arenas lotados de legiões de fãs com as letras das canções na ponta da língua.

Faixas

Lado A 
  1. "A Revolta dos Dândis I"     
  2. "Terra de Gigantes"             
  3. "Infinita Highway"                
  4. "Refrão de Bolero"              
  5. "Filmes de Guerra, Canções de Amor" 
Lado B                 
  1. "A Revolta dos Dândis II" 
  2. "Além dos Outdoors"          
  3. "Vozes" 
  4. "Quem Tem Pressa Não Se Interessa"  (Humberto Gessinger - Carlos Maltz)       
  5. "Desde Aquele Dia"                           
  6. "Guardas da Fronteira"  
Todas as canções são de autoria de Humberto Gessinger exceto a indicada.

Engenheiros do Hawaii: Humberto Gessinger (voz, baixo e guitarra 12 cordas ), Augusto Licks (guitarras, violões, harmônica, órgão Hammond e vocais) e Carlos Maltz (bateria, percussão, vocais e voz em “Filmes De Guerra, Canções de Amor”).

Ouça na íntegra o álbum A Revolta dos Dândis

sábado, 12 de agosto de 2017

“Elvis Presley” (RCA, 1956), Elvis Presley


Filho de Gladys Presley e Vernon Elvis Presley, um casal muito pobre de Tupelo, estado do Mississipi, Estados Unidos, Elvis Aaron Presley veio ao mundo em 8 de janeiro de 1935. O futuro “Rei do Rock” nasceu do parto de gêmeos univitelinos, ou seja, poderíamos ter tido “dois Elvis” iguaizinhos. Infelizmente, seu irmão gêmeo que nasceu pouco antes dele, Jessie Garon, nasceu morto, enquanto que Elvis nasceu forte e saudável. Desde criança, Elvis ouvia música gospel na igreja em que frequentava, o blues dos negros de sua cidade natal e country music que tocava no rádio, gênero que formariam o astro musical para a sua carreira artística mais tarde.

Quando completou 11 anos de idade, em 1946, Elvis ganha de presente de aniversário um violão dos seus pais, vindo a aprender a tocar com seus tios e um pastor da igreja. Dois anos depois, em 1948, Elvis e sua família mudam-se para Memphis, no Tennesse. Entre 1948 e 1953, já adolescente, Elvis concilia estudo e trabalho para ajudar no sustento da família.

Elvis criança entre os seus pais, Gladys e Vernon Presley.

Aos 18 anos, conclui o ensino secundário e vai trabalhar de caminhoneiro. Em julho de 1954, durante um intervalo de trabalho no seu emprego de caminhoneiro, Elvis vai ao Memphis Recording Service para satisfazer o desejo pessoal de gravar um disco. A empresa, de propriedade de Sam Phillips, o mesmo dono da gravadora Sun Records, disponibilizava o serviço onde por 4 dólares, qualquer pessoa poderia gravar algumas músicas e levava para casa uma cópia de um disco de acetato com as gravações. Lá, sem grandes pretensões a vir a ser um cantor profissional, Elvis gravou duas canções, “My Happiness” e “That’s When Your Heartaches Begin”.

Dias depois, Elvis recebe um telefonema da gravadora Sun Records para ele gravar “Without You”, pois sua voz se encaixava com a música. Foram gravados vários takes, mas nada ficou do jeito que Sam Phillips queria. No entanto, o produtor e empresário ficou impressionado com o potencial do então jovem caminhoneiro.

Sam Phillips e Elvis Presley.
Elvis é novamente chamado pela gravadora, desta vez para uma sessão de ensaio com o guitarrista Scotty Moore e o baixista Bill Black. Após tentarem várias músicas sem despertar interesse em Sam, o trio faz uma pausa. Durante o intervalo, num momento de descontração, Elvis canta “That’s All Right”, de Arthur “Big Boy” Crudup de maneira mais acelerada, e logo é seguido por Scotty e Black no acompanhamento instrumental. Aquilo impressiona Sam Phillips, era o que ele tanto procurava. O trio grava “That’s All Right” que logo é lançada como primeiro single de Elvis Presley, tendo “Blue Moon Of Kentucky como lado B. “That’s All Right” começa a tocar na rádio WBHQ, de Memphis, e ganha vários pedidos dos ouvintes.

Durante o restante do ano de 1955, Elvis, Scotty e Black gravaram mais de 22 de canções e mais três singles foram lançados. Com a boa execução radiofônica de “That’s All Right”, sucedem-se vários shows em Memphis e cercania. Em outubro de 1955, Elvis se apresenta em Nashville, a capital da “country music”, e no “Lousiana Hayride, em Louisiana, evento transmitido pelo rádio.

Depois que passa a ser agenciado pelo “Coronel” Tom Parker, a carreira de Elvis ganha um grande impulso. Influente, Parker consegue um contrato para Elvis com a gravadora RCA Records, em novembro de 1955 por 35 mil dólares, um valor alto para época. A Sun Records, a gravadora que revelou Elvis, recebe uma valor alto que revigoras as finanças da empresa e permite um investimento no seu cast e na sua estrutura. Além de levar Elvis, a RCA leva também todas as matrizes das gravações feitas por Elvis na Sun Records, incluindo material inédito.

Em janeiro de 1956, Elvis entra nos estúdios de gravação da RCA, em Nashville para fazer as suas primeiras gravações na nova gravadora. Na sessão de gravação, Elvis contou com a presença de seus velhos companheiros de Sun Records, o guitarrista Scotty Moore e o baixista Bill Black, mais os novos companheiros, o também guitarrista Chet Atkins, o pianista Floyd Coleman e o baterista D. J. Fontana. Dentre as primeiras canções gravadas está “Heartbreak Hotel”, lançada como single no final daquele mês.

Finalmente, em 23 de março de 1956, a RCA lança o primeiro álbum de Elvis Presley e que leva o seu nome. A capa, cuja foto foi registrada por Willliam V. “Red” Robertson, estampa um jovem Elvis empunhando o seu violão num show no Fort Homer Hesterly Armory, em Tampa, na Flórida, Estados Unidos, em julho de 1955. Ela inspiraria 23 anos depois a capa do álbum London Calling, do The Clash.

London Calling, do Clash: inspiração na capa
do primeiro álbum de Elvis.
Elvis Presley, o álbum, traz material gravado na RCA, mas também material gravado por Elvis na Sun Records, que é justamente as fitas que a nova gravadora havia adquirido e que fez parte do pacote da contratação do futuro “Rei do Rock”. Quem abre o álbum é “Blue Suede Shoes”, um cover que Elvis fez de Carl Perkins. A música havia sido lançada por Carl em janeiro de 1956 e estava fazendo um grande sucesso. Num acordo entre a RCA e Sun Records, A RCA se comprometeu em não lançar um single de “Blue Suede Shoes” na voz de Elvis enquanto a versão de Carl Perkins estivesse nas paradas das mais tocadas. A RCA só lançou meses depois, em setembro de 1956.

A balada “I'm Counting on You” dá prosseguimento ao lado A seguida de "I Got a Woman", outro cover do álbum, desta vez de uma canção de Ray Charles, onde Elvis transforma  rhythm and blues com pinceladas de jazzísticas da versão original em um rockabilly. Em “One Sided Love Affair”, Elvis não admite amor não correspondido: “se quiser ser amada, tem que me amar também”, canta ele. “I Love You Because”, sucesso de 1949 do cantor de country music, Leo Payne, ganha uma versão com o vozeirão calmo de Elvis, com direito a assobio na introdução e solos melódicos de guitarra. Esta versão faz parte do material gravado por Elvis na época da Sun Records e que fora adquirida pela RCA. Fechando o lado A,  também do material da Sun Records, o rockabilly “Just Became”, uma regravação de uma canção de Nelstone’s Hawaiians, de 1929.

“Tutti Frutti”, um clássico de Little Richard de 1955, abre o lado B, onde Elvis canta num tom de voz mais “suave”, diferente do modo mais “selvagem” e agressivo da versão original de Richard. “Trying To Get To You” é outra música gravada nos tempos da Sun Records e que entrou neste álbum de estreia de Elvis. Na canção, Elvis emprega estilo vocal negro na maneira de cantar. “I'm Gonna Sit Right Down and Cry (Over You)” é uma canção pop que seria regravada mais tarde pelos Beatles. Seguem mais duas canções dos tempos da Sun Records, “I'll Never Let You Go (Little Darlin')”, onde Elvis demonstra todo o seu potencial vocal para canções românticas e cover de  “Blue Moon”, canção dos anos 1930 e que ganharia dezenas de versões ao longo do tempo, de Frank Sinatra a Rod Stewart. Fechando o álbum, “Money Honey”, originalmente gravada por Clyde McPhatter & The Drifters em 1953 e que ganhou uma versão rock’n’roll com Elvis Presley.

O álbum de estreia de Elvis teve um bom desempenho comercial. Foi 1º lugar na Billboard na parada de álbuns, nos Estados Unidos, e também na Record Mirror, na Inglaterra, em 1956. Elvis Presley, o álbum, foi o primeiro álbum de rock a chegar o 1º lugar das paradas de vendagens de discos e o primeiro do gênero a chegar à marca de 1 milhão de cópias vendidas. Meses antes, o single e “Heartbreak Hotel”, já havia também vendido mais de 1 milhão de cópias, apesar de ter ficado de fora do álbum.  

O sucesso havia finalmente chegado para o jovem Elvis Presley. As aparições nos programas de TV, como no de Ed Sullivan, em setembro de 1956, levavam as fãs a uma completa histeria. Elvis começava se tornara um fenômeno não só musical como também comportamental. Seu jeito transgressor de se apresentar chocava o público conservador norte-americano que se escandalizava ao vê-lo fazer movimentos sensuais nos programas de TV. Seu sucesso não se resumia à musica; em novembro de 1956 ele estreia no cinema como protagonista do filme Love me Tender (Ama-me Com Ternura, no Brasil). Um mês antes, a RCA lançava o segundo álbum do “Rei do Rock”, intitulado Elvis.

Faixas

Lado A
  1. "Blue Suede Shoes" (Carl Perkins)         
  2. "I'm Counting on You" (Don Robertson)             
  3. "I Got A Woman" (Ray Charles - Renald Richard)            
  4. "One-Sided Love Affair" (Bill Campbell)              
  5. "I Love You Because" (Leon Payne)       
  6. "Just Because" (Sydney Robin - Bob Shelton - Joe Shelton)       


Lado B 
  1. "Tutti Frutti" (Dorothy LaBostrie - Richard Penniman)  
  2. "Trying To Get To You" (Rose Marie McCoy - Margie Singleton)
  3. "I'm Gonna Sit Right Down and Cry (Over You)" (Howard Biggs - Joe Thomas)  
  4. "I'll Never Let You Go (Lil' Darlin')" (Jimmy Wakely)
  5. "Blue Moon" (Richard Rodgers - Lorenz Hart)
  6. "Money Honey" (Jesse Stone)

Confira na íntegra Elvis Presley, o álbum (exceto a 
faixa "Trying to Get to You" que está bloqueada)


Ouça a faixa "Trying To Get To You"


sábado, 5 de agosto de 2017

“Exodus” (Island, 1978), Bob Marley & The Wailers


Durante a década de 1970, a Jamaica era um verdadeiro barril de pólvora, tanto no campo social quanto no campo político. A ilha vivia um alto índice de violência fruto da grande desigualdade social, principalmente nas ruas de Kingston, capital jamaicana. Na política, desde que se tornou independente da Inglaterra, em 1962, a Jamaica era dividida por um sistema bipartidário no qual o PNP (People’s National Party ou Partido Nacional Popular) liderado por Michael Manley, e o JLP (Jamaican Labour Party ou Partido Trabalhista Jamaicano), liderado por Edward Seaga, se revezavam no poder e travavam batalhas políticas sangrentas.

No meio de todo esse confronto estava Bob Marley, ilustre filho da ilha caribenha. Marley vivia a plena ascensão artística, era um astro internacional da música. Popularizou o reggae em todo o planeta e colocou a pequena ilha onde nasceu no mapa da música pop mundial. Apesar da fama, Marley mantinha contato com as suas origens, com o povo do gueto de Kingston.

Jamaica em pleno estado de tensão em 1976.

Em 1976, a Jamaica estava em pleno clima de pré-eleições, e isso significava estado de tensão num país tão desigual e polarizado politicamente. Numa tentativa de amenizar a situação, Bob Marley fora convidado para fazer um show para o povo em dezembro daquele ano, na verdade um evento pacífico intitulado “Smile Jamaica” promovido pelo PNP que naquele momento estava no poder. Bob Marley era a única figura que poderia conter aquela situação que beirava a uma guerra civil.

Só que dois dias antes do esperado show, a mansão do astro do reggae foi invadida por sete homens armados que chegaram atirando, mas felizmente não houve mortos. Contudo, Marley foi ferido no peito que quase atingiu o coração. Rita Marley, sua mulher, foi ferida de raspão da cabeça, enquanto que o empresário de Bob, Don Taylor, conseguiu sobreviver, mesmo tendo levado vários tiros. Alguns músicos da banda também foram feridos.

Apesar do atentado, Marley e sua banda cumpriram a combinado e fizeram o show para um público estimado em 80 mil pessoas, em Kingston. Marley subiu ao palco ainda com os curativos. No show, Bob Marley promoveu o encontro dos dois líderes adversários políticos, Michael Manley e Edward Seaga no palco.

Bob Marley promovendo o encontro pacifista entre os inimigos políticos
Michael Manley ( à esquerda) e Edward Seaga ( à direita), em dezembro de 1976. 

Em janeiro de 1977, Marley, acompanhado da sua família e banda, deixa a Jamaica e muda-se para Londres, Inglaterra, onde permanecerá por pouco mais de um ano. Marley desembarca numa Inglaterra em plena efervescência punk e acaba se identificando com aquele movimento que pôs o cenário musical e cultural inglês de pernas para o ar. Para aqueles jovens garotos, Marley compõs “Punky Reggae Party”, uma música que é uma confraternização entre rastas e punks, que no fim das contas tinham algumas coisas em comum.

Já instalados na nova morada, Bob Marley & The Wailers começam naquele mesmo janeiro de 1977 o processo de gravação do novo álbum nos estúdios da Island Records. Intitulado, Exodus, o título do novo álbum tinha tudo a ver com a nova realidade daqueles jamaicanos astros do reggae.

“Natural Mystic” abre o álbum com um som quase inaudível, mas que vai aumentando gradativamente até chegar à sua normalidade. “So Much Things To Say” parece tocar sobre o atentando que Marley sofreu (“Não viemos para a luta de carne e sangue / Mas contra a maldade espiritual em lugares altos e baixos / Assim, enquanto eles tentam te derrubar / Fique firme e dê graças a Jah”). Em “Guiltiness”, Marley manda um recado àqueles que tentaram matá-lo (“Eles comem o pão da tristeza / Aí vem os opressores / Eles comem o pão triste amanhã). “The Heathen” versa sobre ter a coragem de lutar e não desistir. 

Fechando o lado A está a faixa-título do álbum, uma clara inspiração no êxodo do Antigo Testamento sob uma visão da filosofia rastafári, mas ao mesmo tempo uma inspiração no próprio êxodo de Marley ao deixar a Jamaica após o atentado que sofreu. 

Exílio londrino : Bob Marley retornando do Tribunal de Magistrados, em Londres,
após ser multado por porte de maconha, em abril de 1977. 

O lado B se mostra um tanto quanto mais ameno, abrindo com “Jamming” que traz um ritmo descontraído, mas Marley em seus versos toca ainda no assunto do atentado que sofreu ao afirmar que nem as balas podem detê-lo e que nem se curvará diante dos que querem destruí-lo. Em seguida vem uma sequência de duas canções românticas com “Waiting In Vain”, que traz um lindo solo melódico de guitarra de Junior Marvin, e “Turn Your Lights Down Lown”, uma bela e lenta balada com forte influência de R&B, evidenciada pelos vocais das I Threes, as backing vocals da banda de Marley. As duas canções foram compostas por Marley e dedicadas a Cindy Breakspeare, uma modelo com quem o “Rei do Reggae” teve um romance extraconjugal, e no qual os dois tiveram um filho, o cantor Damian Marley.

As duas últimas faixas ficaram famosas pelo teor otimista e pelo ritmo alegre. “Three Little Birds” conquistou o público infantil, enquanto que “One Love (People Get Ready)” tornou-se um dos maiores sucessos da carreira de Bob Marley. A canção na verdade é antiga, gravada originalmente em 1965, quando os Wailers ainda eram um trio, formado apenas por Bob Marley, Neville “Bunny” Livingston e Peter Tosh. A regravação para o álbum Exodus por fazer uma citação de “People Get Ready”, canção do soulman Curtis Mayfield, passou a ser creditada a Marley e Mayfield, e ganhou esse subtítulo.

The Clash: um dos homenageados por
Marley em "Punky Reggae Party".
Exodus  chegou às lojas em 3 de junho de 1977 e teve um lançamento festivo em Paris e Los Angeles bancado pela Island Records. O álbum foi bem aclamado pela crítica que teceu elogios à guitarra de Junior Marvin e à “cozinha” dos Wailers formada pelo baixo de Aston Barrett e à bateria de Carlton Barrett. No Reino Unido, Exodus foi 8º lugar na parada de vendas, nos Estados Unidos ficou em 20º na parada da Billboard, na Holanda em 11º lugar e na França em 20º. O single de “Jamming” trouxe no seu lado B a faixa "Punky Reggae Party", homenagem de Marley aos punks em cuja letra faz citações a bandas punks britânicas como The Clash e The Damned, mas que ficou de fora do álbum Exodus. A música seria uma retribuição ao fato do Clash ter gravado em seu primeiro álbum “Police And Thieves”, do cantor Junior Murvin, não confundir com o guitarrista dos Wailers que é Junior Marvin, com “A”. “Three Little Birds” e “One Love (People Get Ready)”, assim como “Jamming”, tornaram-se os grandes hits do álbum e clássicos da história do reggae.

Bob Marley ainda gravaria mais um álbum durante o seu exílio em Londres, Kaya, em 1978. Pouco depois, ele retornaria para a Jamaica pondo fim à sua morada londrina.

Neste ano de 2017, foi lançada uma edição especial de 40 anos de Exodus chamada de Exodus 40 – The Movement Continues que saiu em três versões: CD duplo, triplo, vinil quádruplo e em serviço de streaming. Essa edição, além de trazer a versão original, traz uma versão produzida por Ziggy Marley, filho de Bob, com arranjos inéditos e ordem alterada. O álbum triplo traz um dos CD’s com o show de Exodus gravado ao vivo em junho de 1977 no Rainbow Theatre, em Londres.

Faixas

Lado A
  1. "Natural Mystic"
  2. "So Much Things to Say"
  3. "Guiltiness"
  4. "The Heathen"
  5. "Exodus"

Lado B
  1. "Jamming"     
  2. "Waiting in Vain"      
  3. "Turn Your Lights Down Low"
  4. "Three Little Birds"              
  5. "One Love/People Get Ready" (Bob Marley - Curtis Mayfield)

Todas as faixas são de autoria de Bob Marley, exceto a indicada.

Bob Marley & The Wailers:
Bob Marley (vocal principal, guitarra base, violão, percussão), Aston "Family Man" Barrett (baixo, guitarra, percussão), Carlton Barret (bateria e percussão), Tyrone Downie (teclados, percussão, vocais), Alvin "Seeco" Patterson (percussão), Junior) Marvin (guitarra solo) e I Threes (Rita Marley, Marcia Griffiths, Judy Mowatt – backing vocals)


Ouça o álbum Exodus na íntegra

sábado, 29 de julho de 2017

“Com Você … Meu Mundo Ficaria Completo” (Universal Music, 1999), Cássia Eller


A concepção do quinto álbum de estúdio de Cássia Eller (1962-2001) partiu depois de uma situação inusitada. Seu filho, Francisco Eller, o Chicão, então com uns seis anos de idade, havia dito à mãe que ela não cantava, só berrava, e que quem cantava mesmo era Marisa Monte. Aquilo parece ter mexido com a cantora e lhe chamado atenção. Cássia se notabilizou pelo jeito explosivo de cantar, principalmente nos shows ao vivo. Se foi baseado ou não na bronca do garoto, o fato é que Cássia decidiu se portar como uma interprete mais “suave” no seu quinto álbum, intitulado Com Você … Meu Mundo Ficaria Completo, o que não significava que ela abria mão da rebeldia e da maneira visceral de cantar, pois no palco ela se transformava, o seu lado “selvagem” vinha à tona.

Para a produção do álbum, Cássia contou com o amigo e irmão de alma Nando Reis. A amizade entre os dois era muito forte. Cássia se tornou a maior intérprete das canções de Nando. O álbum apresenta quatro canções de Nando Reis: "O Segundo Sol", "Meu Mundo Ficaria Completo (Com Você)", "Infernal" e "As Coisas Tão Mais Lindas".

Cássia Eller e o filho Francisco Eller, o Chicão.
E é justamente uma canção de Nando Reis que abre o álbum, "O Segundo Sol", que na voz de Cássia Eller, ganhou uma versão definitiva e marcante. A canção na verdade era para ter sido gravada por Nando Reis no seu segundo álbum solo que ele estava para gravar. Só que Cássia, folheando um caderninho com as músicas novas escritas por ele, viu a letra de "O Segundo Sol", e disse que ia gravá-la. E de nada adiantou os apelos de Nando, Cássia disse que ia “roubar” aquela canção para gravar, e foi o que aconteceu. Mais tarde, Nando Reis disse que foi o melhor “assalto” que havia sofrido.

Seguem-se duas faixas de teor romântico, o rock “Mapa Do Meu Nada”, de Carlinhos Brown e o amor obsessivo de “Gatas Extraordinárias”, de Caetano Veloso, enquanto que “Um Branco, Um Xis, Um Zero" cheira a sexo casual e descartável. Em "Meu Mundo Ficaria Completo (Com Você)", Cássia se mostra uma intérprete impecável, valorizando uma das melhores letras compostas por Nando Reis, onde os problemas não são nada diante do amor.

Um som de órgão abre “Palavras Ao Vento”, de Marisa Monte e Moraes Moreira (atualmente, nora e sogro), tendo Cássia em mais uma interpretação marcante neste álbum. Na sequência, ela aprende as lições da vida no baião “Aprendiz de Feiticeiro”, de Itamar Assumpção. “Pedra Gigante” é uma bela canção de Gilberto Gil e Bené Fonteles que fala sobre a misteriosa Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro. A curiosidade é que nessa música, Cássia faz um dueto com sua mãe, Nanci Ribeiro. “Infernal”, mais outra de Nando Reis, é um funk cheio de metais, solos de guitarra e muito balanço. “Maluca” começa com num clima de tango pontuado por um acordeom, e Cássia mostra o seu lado suave e calmo como intérprete, tendo a sua voz emoldurada por um belo arranjo de cordas. “As Coisas Mais Lindas Do Mundo” é uma balada folk composta por Nando Reis que seria regravada por ele anos depois. Fechando o álbum, "Esse Filme Eu Já Vi", uma música que é meio samba-canção, meio jazz.

Nando Reis e Cássia Eller: uma grande amizade.

O que se percebe Com Você … Meu Mundo Ficaria Completo é que Cássia conseguiu o que pretendia, o de mostrar-se uma intérprete mais suave e calma. Com Você … Meu Mundo Ficaria Completo teve uma razoável recepção positiva da crítica, ou pelo menos, parte dela. A revista Bizz, de setembro de 1999, não foi nada simpática ao álbum: deu nota 4 ao trabalho e desdenhou da rebeldia da cantora nos álbuns anteriores levando a crer que era tudo falso.

Apesar das duras críticas da revista, Com Você … Meu Mundo Ficaria Completo foi um grande sucesso de público que ajudou o álbum a atingir a marca de 300 mil cópias vendidas. "O Segundo Sol", "Palavras Ao Vento", "Meu Mundo Ficaria Completo (Com Você)" e "Gatas Extraordinárias" foram os hits do álbum. Em 2000, Com Você … Meu Mundo Ficaria Completo foi um dos indicados ao prêmio Grammy Latino na categoria “Melhor Álbum de Rock Brasileiro”.

O bom desempenho de Com Você … Meu Mundo Ficaria Completo abriu caminho para Cássia gravar em 2001 o Acústico MTV, seu terceiro álbum ao vivo e o trabalho que mais vendeu na sua carreira, chegando a pouco mais de 1 milhão de cópias vendidas. Cássia vivia o melhor momento da sua carreira quando em 29 de dezembro de 2001, sofreu um infarto do miocárdio, vindo a falecer aos 39 anos de idade.

Faixas:
  1. "O Segundo Sol" (Nando Reis)
  2. "Mapa do Meu Nada" (Carlinhos Brown)
  3. "Gatas Extraordinárias" (Caetano Veloso)          
  4. "Um Branco, Um Xis, Um Zero" (Arnaldo Antunes - Marisa Monte - Pepeu Gomes)
  5. "Meu Mundo Ficaria Completo (Com Você)" (Nando Reis)        
  6. "Palavras ao Vento" (Marisa Monte - Moraes Moreira)              
  7. "Aprendiz de Feiticeiro" (Itamar Assumpção)   
  8. "Pedra Gigante" (Gilberto Gil - Bené Fonteles)
  9. "Infernal" (Nando Reis)              
  10. "Maluca" (Luiz Capucho)            
  11. "As Coisas Tão Mais Lindas" (Nando Reis)          
  12. "Esse Filme Eu Já Vi" (Luiz Melodia - Renato Piau)

Ouça Com Você … Meu Mundo 
Ficaria Completo na íntegra.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

“Appetite For Destruction” (Geffen, 1987), Guns N’ Roses


Na segunda metade dos anos 1980, o mundo ainda vivia uma “ressaca” pós-punk, e ao mesmo tempo, via bandas de glam metal e seus cabelos entupidos de laquê e astros de dance music disputando os holofotes do grande circo do show business. Em meio a esse cenário, eis que surge, arrombando a porta do circo pop, a banda Guns N’ Roses, trazendo a reboque o seu álbum de estreia: Appetite For Destruction. O álbum apresentava uma banda em pleno estado de ebulição que combinava a potência sonora do hard rock dos anos 1970 de Aerosmith, Led Zeppelin, Nazareth e Humble Pie com a fúria punk dos Sex Pistols. Somando-se a essas qualidades musicais, o “mandamento” sexo, drogas e rock’n’roll que a banda seguia à risca. Appetite For Destruction não só deu um novo frescor ao hard rock como entrou para galeria dos melhores álbuns de estreia da história do rock.

O caminho que leva a banda californiana até Appetite For Destruction começa a se desenhar em 1985, em Los Angeles, quando alguns integrantes de duas bandas recém-acabadas decidiram se juntar e formar uma nova banda de rock. Axl Rose (vocal) e Izzy Stradlin (guitarra base) do Hollywood Rose juntaram-se a Tracii Guns (guitarra solo), Ole Beich (baixo) e Rob Gardner (bateria), os três oriundos da LA Guns, e formaram os Guns N’ Roses, cujo nome é fruto da junção dos nomes das antigas bandas dos músicos. Não durou muito tempo, e Ole foi substituído por Duff McKagan, Tracii por Slash e Gardner por Steven Adler.

Hollywood Rose e L.A. Guns: as raízes do Guns N' Roses.
Após algumas turnês, uma delas cancelada porque a van da banda quebrou na estrada, o grupo assina contrato em março de 1986 com a Geffen Records. No final do ano, lança o EP supostamente gravado ao vivo Live? Like A Suicide através do Uzi Suicide, selo criado pelos Guns N’Roses, mas bancado pela Geffen. Entre março e abril de 1987, a banda entra em estúdio para gravar o seu primeiro álbum sob a produção de Mike Clink.

Em 21 julho de 1987, Appetite For Destruction chega às lojas. A capa causou um escândalo ao trazer uma ilustração onde mostra um robô estuprador e sua vítima caída ao chão, e ao fundo, uma criatura que surge saltando de trás de um muro para atacar o robô. Criada pelo ilustrador Robert Williams, a arte foi censurada nos Estados Unidos, e lá o álbum acabou saindo com outra capa, desta vez trazendo uma ilustração de um crucifixo com as caveiras dos cinco integrantes da banda. O conteúdo do álbum não poderia ser menos explosivo: hard rock pesados, riffs matadores e letras falando abertamente de sexo, álcool e drogas.

Capa da edição norte-americana de Appetite 
For Destruction.
O álbum abre com uma tremenda paulada, “Welcome To The Jungle”, onde Axel dá “boas vindas” para quem quer se aventura numa metrópole como Los Angeles, onde o perigo está à espreita a cada esquina. “It’s So Easy” e sua introdução inspirada em “Liar”, dos Sex Pistols, denuncia que os Guns N’Roses têm alguma “descendência” punk no seu "DNA".  “Nightrain” traz riffs de guitarra que remetem ao Aerosmith. Na autobiográfica “Out Ta Get Me”, Axl se refere ao seu passado de delinquência juvenil ainda na terra natal, Lafayette, Indiana, nos Estados Unidos, onde chegou a ser preso mais de vinte vezes. Composta por Izzy e Slash, “Mr. Brownstone” aborda o vício dos dois em heroína. “Paradise City” traz teclados em meio a uma massa sonora de guitarras, baixo e bateria, e Axl cantando com sua voz rasgada a plenos pulmões.

“My Michelle” foi composta em homenagem a uma amiga de Slash, e alterna o ritmo lento nas estrofes com um ritmo mais veloz nos refrãos. “Think About You” é veloz do início ao fim, traz solos de guitarra de Izzy, autor da faixa. Principal faixa do álbum, “Sweet Child O' Mine” foi escrita por Axl  inspirado na sua então namorada, Erin Everly, filha de Don Everly, da dupla Everly Brothers. A música traz um riff de guitarra que está entre os maiores da história do rock. “You’re Crazy” seria a princípio uma canção acústica, mas durante as gravações do álbum, optaram por uma versão veloz, elétrica e pesada. “Anything Goes” é uma música composta por Axl e Izzy quando ainda integravam o Hollywood Rose. “Rocket Queen” é praticamente duas músicas em uma; sua primeira parte tem um ritmo puxado para o funk, antecipando o funk metal que se tornaria uma realidade na virada dos anos 1980 para os anos 1990. É possível ouvir gemidos femininos de quem estaria fazendo sexo. Do meio para o fim, o ritmo muda para um hard rock convencional.

Guns n' Roses em sua formação clássica: Duff McKagan, Slash, Axl Rose, Steven Adler e Izzy Stradlin. 

A turnê promocional de Appetite For Destruction já havia começado em março de 1987, antes mesmo do lançamento do álbum. Os Guns N’Roses haviam partido para uma série de shows abrindo para as apresentações do Aerosmith, Iron Maiden The Cult, Alice Cooper e Motley Crüe. A turnê promocional terminou em dezembro de 1987, e passou por Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Holanda, Reino Unido e Japão.

Recheado de rocks pesados e riffs afiados, o álbum não demorou em conquistar o topo da parada norte-americana. Puxado pelos hits "Welcome To The Jungle", "Sweet Child O' Mine" e “Paradise City", cujos videoclipes tiveram grande rotatividade da MTV norte-americana , Appetite For Destruction alcançaria em dois anos a marca de 10 milhões de cópias vendidas (6 milhões só nos Estados Unidos) e se tornaria o álbum de estreia mais vendido de todos os tempos, posto que por dez anos foi do primeiro e homônimo álbum da banda Boston. O single de “Sweet Child O' Mine” foi 1º lugar da Billboard Hot 100.

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Cartaz promocional anunciando Gun N' Roses 
na abertura de show do Aerosmith em 1987. 
À medida que Appetite For Destruction escalava as paradas e alcançava elevados índices de vendagens, a banda arrastava cada vez mais fãs e seus shows passaram a ser disputadíssimos. Se antes a banda era quem abria os shows dos medalhões, desta vez ela se tornava a atração principal. Mas o imenso sucesso era proporcional ao tamanho das confusões em que os Guns N’Roses se envolviam. Em 1988, durante um show no festival Monsters Of Rock, em Derby, na Inglaterra, dois fãs morreram pisoteados. A fama era acompanhada de bebedeiras, arruaças, depredações de hotéis e camarins, briga com fãs, abuso de drogas e tumultos em shows. Não tardaram os processos judiciais movidos contra a banda.

Com mais de 40 milhões de cópias vendidas ao longo das décadas, Appetite For Destruction é de longe o álbum mais bem sucedido da carreira dos Guns N’ Roses, seja pelas ótimas avaliações da crítica, seja pelo sucesso comercial. É o 11º álbum mais vendido da história da indústria fonográfica. Appetite For Destruction frequenta as mais diversas listas de melhores álbuns de todos os tempos.
  
Faixas:

Lado A 
  1. "Welcome To The Jungle" (Axl Rose – Slash - Duff McKagan)   
  2. "It's So Easy" (Duff - West Arkeen)        
  3. "Nightrain" (Izzy Stradlin – Axl – Slash – Duff)  
  4. "Out Ta Get Me" (Izzy - Axl)
  5. "Mr. Brownstone" (Izzy – Slash)             
  6. "Paradise City" (Izzy – Slash – Axl – Duff)
Lado B               
  1. "My Michelle" (Izzy - Axl)
  2. "Think About You" (Izzy)
  3. "Sweet Child O' Mine" (zzy – Slash – Axl – Duff)
  4. "You're Crazy" ( Izzy - Slash - Axl)
  5. "Anything Goes" (Izzy – Axl - Chris Weber)       
  6. "Rocket Queen" (Axl - Slash - Duff)

Guns N’ Roses: Axl Rose (vocal), percussão ("Welcome To The Jungle") e apito ("Paradise City"), Slash (guitarra solo), Izzy Stradlin (guitarra base e vocal de apoio), Duff McKagan (baixo e vocal de apoio) e Steven Adler (bateria).


Ouça Appetite For Destruction na íntegra.

sábado, 15 de julho de 2017

“Slippery When Wet” (Vertigo, 1986), Bon Jovi


Após os dois primeiros álbuns que tiveram êxitos comerciais modestos, os membros do Bon Jovi estavam decididos que o terceiro deveria ter um resultado diferente e que fosse capaz de alçar a banda de Nova Jersey a voos mais altos. Para tanto, recrutaram o músico e compositor Desmond Child, um hitmaker de primeira linha, acostumado a compor músicas de apelo comercial e que já havia escritos canções para vários astros da música como Kiss, Cher e Bonnie Tyler.  A produção do novo álbum ficou a cargo de Bruce Fairbairn (1949-1999), produtor que tinha no currículo bandas como Blue Öyster Cult, Loverboy e Krokus.

Intitulado Slippery When Wet, o terceiro álbum do Bon Jovi foi todo gravado em Vancouver, no Canadá, no Little Mountain Sound Studios, onde dezenas de astros do rock mundial gravaram seus álbuns. Era um lugar que o produtor Fairbairn conhecia muito bem, pois já havia produzido discos ali. Para certificar-se do potencial das músicas perante o público, a banda fez um teste de audição do material gravado com o público antes da finalização do trabalho, o que possibilitaria uma seleção mais apurada do que iria para o álbum com a certeza de sucesso que era o que a banda estava almejando.

Capa rejeitada de Slippery When Wet. 
Em 18 de agosto de 1986, Slippery When Wet chegou às lojas. A princípio, a capa do álbum seria uma mulher com uma camiseta molhada e recortada mostrando detalhes dos seios, porém foi rejeitada.

O que se percebe em Slippery When Wet é que o Bon Jovi manteve o destaque aos teclados como nos álbuns anteriores, mas deu mais ênfase ao peso das guitarras. É um disco no qual o som da banda ficou mais comercial, com um “sabor” mais pop, caindo no gosto do público rapidamente, combinando o peso dos hard rocks com o romantismo das baladas, tudo muito bem produzido, tudo bem equilibrado, um som bem polido na medida certa para agradar o público das rádios FM.

Slippery When Wet começa com os solos apoteóticos de teclados na introdução de “Let It Rock”. “You Give Love A Bad Name” é um típico hard rock radiofônico: pesado e refrão ganchudo. O mesmo vale para “Livin' On A Prayer”, que quase ficou de fora do álbum se não fosse a insistência de Richie Sambora que acreditava no potencial da música. A sonoridade acústica dos violões e o peso das guitarras se alternam em “Wanted Dead Or Alive”, balada hard rock que quase foi título do álbum.  Em “Raise Your Hands”, o Bon Jovi transita entre a fronteira do hard rock e o heavy metal. “Never Say Goodbye” mostra capacidade do Bon Jovi em compor baladas românticas certeiras, algo que se tornaria rotineiro em todos os discos da banda.

Dos quatro singles que o álbum gerou, três deles chegaram ao Top 10 da Billboard. O single de "You Give Love A Bad Name", lançado um mês do antes do álbum, alcançou o 1º lugar da Billboard. “Wanted Dead Or Alive”  foi 7º lugar da Billboard Hot 100. O single de “Livin' On A Prayer”, o maior hit do álbum, teve mais de 3 milhões de cópias vendidas nos Estados Unidos, foi 1º lugar das paradas americana e britânica, 3º lugar na australiana e 4º lugar na canadense. Seu clipe teve alta rotação na MTV norte-americana. “Never Say Goodbye” foi outro hit do álbum, chegando até a entrar em trilha sonora de novela da Globo aqui no Brasil.

Com mais de 12 milhões de cópias vendidas nos Estados Unidos e 28 milhões mundialmente, e tendo emplacado quase todas as faixas, Slippery When Wet foi um estrondoso sucesso. Foi o álbum com vendagem mais rápida da história da indústria fonográfica até então, atingindo a marca de cinco milhões de cópias em cinco meses, um fenômeno. Os shows da banda, sempre para arenas lotadas, passaram a ser concorridíssimos. O carisma e o perfil de “bom moço” do vocalista Jon Bon Jovi – o “sonho de consumo” de 10 entre 10 garotas da época - e o virtuosismo do guitarrista Richie Sambora, eram os chamarizes da banda.

Bon Jovi no auge de Slippery When Wet: cabeleira armada
e roupas espalhafatosas.

Mas todo esse sucesso descomunal proporcionado por Slippery When Wet veio para o bem e para o mal. Se por um lado alçou o Bon Jovi para o estrelato mundial, por outro ajudou a popularizar o chamado “metal farofa” dos anos 1980, abrindo espaço para bandas de um seguimento do rock pesado que se maquiavam muito, usavam cabeleiras armadas que mais pareciam ter acabado de sair de um salão de beleza. Tal seguimento foi rotulado pela crítica de glam metal ou hair metal, e da qual faziam parte, além do Bon Jovi, o Motley Crüe, Poison, Ratt, Cinderella entre outras, e que teve muita popularidade na segunda metade dos anos 1980. Essa onda só acabaria com a explosão do grunge no começo dos anos 1990.

Faixas:

Lado A 
  1. "Let It Rock" (Jon Bon Jovi - Richie Sambora)    
  2. "You Give Love a Bad Name" (Bon Jovi – Sambora - Desmond Child)    
  3. "Livin' on a Prayer" (Bon Jovi – Sambora – Child)            
  4. "Social Disease" (Bon Jovi – Sambora)  
  5. "Wanted Dead or Alive" (Bon Jovi – Sambora) 
Lado B
  1. "Raise Your Hands" (Bon Jovi – Sambora)           
  2. "Without Love"  (Bon Jovi - Sambora - Child)      
  3. "I'd Die for You"  (Bon Jovi – Sambora – Child) 
  4. "Never Say Goodbye" (Bon Jovi - Sambora)      
  5. "Wild in the Streets" (Bon Jovi)

Bon Jovi: Jon Bon Jovi ( vocal principal, guitarra), Richie Sambora ( guitarra principal, vocais de apoio), David Bryan ( teclado, vocais de apoio), Alec John Such (baixo, vocais de apoio) e Tico Torres (bateria). 


Confira Slippery When Wet na íntegra