sábado, 9 de dezembro de 2017

“Master Of Puppets” (Elektra, 1986), Metallica


Na primeira metade dos anos 1980, o mainstream do heavy metal era dominado pelas bandas do chamado New Wave Of British Heavy Metal (N.W.O.B.H.M.) ou Nova Onda Do Heavy Metal Britânico, movimento que deu um novo vigor ao heavy metal a partir do final dos anos 1970. O movimento liderado por bandas como Iron Maiden, Def Leppard, Saxon entre outras, começou no underground e em pouco tempo se mostrou uma tendência rentável, com shows para grandes plateias lotadas e milhões de discos vendidos. Além do N.W.O.B.H.M, o lado mais comercial do heavy metal via a expansão da onda do glam metal, compostas por bandas como Mötley Crüe, Ratt e Hanoi Rocks que se apresentavam com roupas extravagantes, cabelos armados, olhos delineados e muita maquiagem.

Metallica em 1985, da esquerda para direita:
James Hetfield (vocal e guitarra base), Cliff Burton
(baixo e backing vocal), Lars Ulrich (bateria) e
Kirk Hammett (guitarra solo).
Enquanto isso, nos subterrâneos do heavy metal, uma outra tendência ganhava força: o thrash metal. Calcado num som que unia o peso do heavy metal e a velocidade do punk rock, o thrash metal trazia uma proposta nova e radical para o metal. O som agressivo, o ritmo acelerado ao extremo (que podia ser alternado por passagens mais lentas), solos de guitarras rápidos e bem trabalhados e arranjos complexos se tornaram as principais características do thrash metal. Selos independentes como os norte-americanos Metal Blade e Magaforce, e o britânico Music for Nations, foram responsáveis pela difusão do thrash metal nos seus primeiros anos. Dentre as primeiras bandas a ganhar projeção internacional e que se tornariam as principais propagadoras do thrash metal estão o Metallica, Slayer, o Megadeth e o Anthrax.

Mas em 1985, a vida do thrash metal começa a mudar quando o Metallica, até então uma banda do selo independente Magaforce, assina em setembro de 1984 um contrato com a gigante Elektra Records. Isso abriu caminho para outras bandas para as grandes gravadoras, o que elevaria depois o thrash metal a uma das mais populares tendências do heavy metal.

Contando na época com James Hetfield (vocal e guitarra base), Kirk Hammett (guitarra solo), Cliff Burton (baixo e backing vocal) e Lars Ulrich (bateria) e dois álbuns no currículo, Kill 'Em All (1983) e Ride The Lightning (1984), o Metallica entrou no Sweet Silence Studios, em Copenhague, na Dinamarca, em setembro de 1985 para gravar Master Of Puppets, seu terceiro álbum e o primeiro por uma grande gravadora. A produção ficou por conta do produtor dinamarquês Flemming Rasmussen, proprietário do Sweet Silence Studios e que havia produzido Ride The Lightning, o segundo álbum da banda norte-americana.

H.P. Lovercraft: seu conto “The Call Of Cthulhu”
inspirou o Metallica compor “The Thing That
Should Not Be”.
Master Of Puppets é uma evolução de Ride The Lightning. Se no segundo álbum, o Metallica se mostra uma banda com grande desempenho técnico, ainda que seus membros fossem tão jovens, em Master Of Puppets é perceptível o aprimoramento musical da banda. O álbum abre com “Battery”, que começa com violões fazendo solos que lembram música flamenca, mas que logo dão lugar a uma muralha sonora de sons de guitarras, seguida depois por um ritmo pesado e agressivo. A faixa seguinte, “Master Of Puppets”, começa forte com uma “rajada” de riffs de guitarra. É dividida por andamentos que revezam ritmo calmo e lento com o pesado e rápido. A música é um alerta sobre o poder manipulador das drogas sobre os seres humanos. “The Thing That Should Not Be” foi inspirada no conto “The Call Of Cthulhu”, do escritor H.P. Lovercraft (1890-1937), de 1928, enquanto que "Welcome Home (Sanitarium)" trata sobre a loucura e a vida num sanatório.

Com um ritmo intenso, alternando a velocidade entre o heavy metal tradicional e o thrash metal, “Disposable Heroes” diz respeito ao horror da guerra e de como o soldado é um mero instrumento descartável de guerra. “Leper Messiah” é uma crítica aos pregadores religiosos da TV, que se enriquecem com o dinheiro da fé alheia. Em “Orion”, os membros do Metallica expõem as suas habilidades numa faixa instrumental com um arranjo complexo, cheio de solos furiosos de guitarra, andamentos que alternam ritmos lentos e rápidos, peso e leveza melódica, calma e tensão. Fechando o álbum, “Damage, Inc.”, que traz na sua introdução, acordes de guitarras em rotação invertida.

Cliff Burton, baixista do Metallica morto no acidente do
ônibus da turnê do Metallica na Suécia, em 1986.
Lançado em 03 de março de 1986, Master Of Puppets foi muito bem aclamado pela crítica na época. Os fãs teriam ficado positivamente surpresos com o poder de fogo do Metallica no novo álbum. Master Of Puppets alcançou o 29º lugar da Billboard 200. Logo após o lançamento de Master Of Puppets, o Metalllica seguiu uma turnê abrindo os shows de Ozzy Osbourne nos Estados Unidos. Durante a turnê, James Hetfield quebrou o pulso quando andava de skate. O roadie da banda, John Marshall, assumiu a guitarra, enquanto Hetfield  ficou apenas com os vocais.

No dia 27 de setembro de 1986, durante a passagem da turnê de divulgação de Master Of Puppets, pela Suécia, um fato lamentável chocou os fãs do Metallica. O ônibus da banda sofreu um acidente ao derrapar e tombar numa estrada congelada próxima à cidade sueca de Ljungby. No acidente, morreram o baixista Cliff Burton, aos 24 anos de idade, o roadie John Marshall (que substituía Hetfield na guitarra) e o motorista do ônibus. A morte de Burton comoveu não só os fãs da banda como toda a comunidade do heavy metal. Em outubro, Jason Newsted assumiu o lugar de Burton ajudando a concluir a turnê que chegou ao fim no começo de 1987.

Master Of Puppets foi o primeiro álbum de thrash metal a receber um disco de platina, conquistado por ter alcançado a marca de 8 milhões de cópias vendidas. É considerado o melhor álbum de thrash metal de todos os tempos e responsável por ter ajudado a dar visibilidade ao gênero no mercado fonográfico e na grande mídia. Em 2017, a revista Rolling Stone elegeu Master Of Puppets o segundo melhor álbum de heavy metal de todos os tempos, perdendo apenas para Paranoid, do Black Sabbath.

Faixas

Lado A
  1. "Battery" (James Hetfield - Lars Ulrich)
  2. "Master of Puppets" (Hetfield – Ulrich - Cliff Burton - Kirk Hammett)   
  3. "The Thing That Should Not Be" (Hetfield – Ulrich – Hammett) 
  4. "Welcome Home (Sanitarium)" (Hetfield – Ulrich – Hammett) 
Lado B
  1. "Disposable Heroes" (Hetfield – Ulrich – Hammett)
  2. "Leper Messiah" (Hetfield – Ulrich)
  3. "Orion" (Instrumental) (Hetfield – Ulrich – Burton)       
  4. "Damage, Inc." (Hetfield – Ulrich – Burton – Hammett) 
             
Metallica: James Hetfield (vocal e guitarra base), Kirk Hammett (guitarra solo), Cliff Burton (baixo e backing vocal) e Lars Ulrich (bateria).   


Ouça na íntegra Master Of Puppets 

sábado, 2 de dezembro de 2017

"Trilogy" (Island Records, 1972), Emerson Lake & Palmer


O trio inglês Emerson Lake & Palmer estava em plena ascensão naquele começo de anos 1970 no nascente rock progressivo. Os três jovens músicos integrantes da banda eram oriundos de bandas de rock famosas. O tecladista Keith Emerson vinha da banda Nice, o vocalista, baixista e guitarrista Greg Lake saiu do King Crimson, enquanto que o baterista Carl Palmer havia integrado a banda Atomic Rooster. Em 1970, os três uniram forças e formaram o supergrupo Emerson Lake & Palmer, uma tendência que estava em voga naquela virada dos anos 1960 para os anos 1970, e inaugurada pelo Cream, quando músicos consagrados se juntavam para formar novas bandas.

Ainda em 1970, o trio assinava contrato com a gravadora Island Records. Naquele mesmo ano, o trio se apresentou no Festival da Ilha de Wight de maneira apoteótica, com direito a disparos de canhões, algo que AC/DC faria mais tarde. Três meses depois, lançou o primeiro e autointitulado álbum, emplacando o primeiro sucesso, “Lucky Man”. Em 1971, sai Tarkus, o segundo álbum do Emerson Lake & Palmer, que alcança o 1º lugar no Reino Unido, e o 9º nos Estados Unidos. Sucedem-se uma série shows sempre concorridos, onde a banda mostrava o seu som que era uma fusão de referências de música erudita, jazz e rock. No final de 1971, o trio lança um álbum gravado ao vivo no qual fez uma adaptação para o rock progressivo de Pictures At A Exhibition, uma suíte para piano de Modest Mussorgsky (1839-1881), de 1874. Batizado com o nome da obra de Mussorgsky, o álbum fez um grande sucesso chegando ao 2º lugar no Reino Unido e 10º lugar nos Estados Unidos.

Greg Lake (acima) e Keith Emerson (centro)
no Festival da Ilha de Wight, em 1970.
Enquanto Tarkus e o ao vivo Pictures At A Exhibition iam bem nas paradas de vendas de álbuns, a banda já estava desde outubro de 1971 no estúdio em processo de gravação do próximo álbum, Trilogy. Se as sessões de gravação de Tarkus foram cercadas de muita tensão entre Keith Emerson e Greg Lake, durante a gravação de Trilogy o clima era bem mais ameno, o que acabou se refletindo no novo álbum.

Terceiro álbum de estúdio do Emerson Lake & Palmer, Trilogy teve Greg Lake como produtor. Foi ele quem produziu os dois primeiros álbuns de estúdio, e o álbum gravado ao vivo, revelando-se além de músico talentoso, um exímio produtor.

As três primeiras faixas de Trilogy são praticamente uma. São três partes interligadas. “The Endless Enigma (Part One)”, faixa que abre o álbum, começa silenciosamente, um tanto quanto sombria. De repente, um som agudo de sintetizador dá o sinal seguido por um piano tenso que cria um clima de suspense, e que a partir daí a música vai numa crescente, aparecendo outros instrumentos até disparar num ritmo de jazz-rock contagiante com solos de órgão Hammond de Keith Emerson. “The Endless Enigma (Part One)” possui andamentos diferentes, vocais de Lake e termina com solos de piano de Emerson que se emendam com a introdução de “Fugue”, uma faixa curta e instrumental na qual o tecladista mostra toda a sua habilidade. Ela serve de conexão para “The Endless Enigma (Part Two)”, que é um complemento de The Endless Enigma (Part One)” e que possui um final imponente.

“From The Beginning” é uma bela balada folk rock, com violão dedilhado de Greg Lake na introdução e uma melodia agradável. Lake canta de maneira tranquila, faz a base rítmica ao violão. Os solos melódicos de guitarra são também de Lake, enquanto Emerson finaliza com um som “assobiante” dos teclados.

Carl Palmer faz uma introdução sensacional com sua bateria em “The Sheriff”, faixa que conta a história de um xerife que segue os passos de um fora da lei. A música termina animadamente ao som de piano de saloon  de cidadezinha do velho oeste norte-americano.

Aaron Copland: autor de "Hoedown".
Fechando o lado A de Trilogy, a instrumental “Hoedown”, uma adaptação de uma peça de música clássica do compositor erudito norte-americano Aaron Copland (1900 -1990). Originalmente, foi composta por Copland para o balé Rodeo, em 1942. Trinta anos depois, a música ganhou uma versão para o rock progressivo através de Emerson Lake & Palmer, com destaque para os solos alucinantes de Keith Emerson no órgão Hammond e no sintetizador Moog, e para a bateria frenética de Carl Palmer.

O lado do B traz três faixas, duas delas com pouco mais de oito minutos cada uma. A primeira é a faixa que dá nome ao álbum, cujo tema tem um caráter romântico falando sobre um amor que chegou ao fim. Começa com um piano melódico de Emerson acompanhando o canto delicado de Lake. Solos de piano se sucedem até a entrada de outros instrumentos juntos, tendo um sintetizador fazendo longos solos. Palmer se mostra um baterista habilidoso, preenchendo todos os espaços da música, e Lake segue cantando e fazendo uma linha de baixo bem marcado.

No hard rock “Living Sin”, Lake surpreende ao cantar de maneira agressiva, parecendo querer vomitar toda uma raiva acumulada, enquanto que Emerson e Palmer mostram todo o virtuosismo como instrumentistas.

“Abaddon’s Bolero” encerra o álbum e é mais um exemplo de música em que o trio buscou inspiração na música erudita. A faixa começa num volume muito baixo, quase inaudível, mas que lentamente vai aumentando e logo se percebe um som de bateria acompanhado de um sintetizador simulando uma flauta, produzindo um som que lembra a de uma banda marcial. No decorrer da música, enquanto o volume vai aumentando, mais instrumentos vão surgindo, o que indica que “Abaddon’s Bolero” foi gravada com várias camadas (overdubs). A repetição melódica e o andamento marcial de “Abaddon’s Bolero” foram inspirados no Bolero de Maurice Ravel (1875-1937), composta pelo francês em 1928.

A criação da capa de Trilogy ficou a cargo do estúdio Hipgnosis, que se especializou na produção de capas de discos e que fez as fotos para Trilogy, uma delas a da paisagem que serve de fundo para a ilustração com os três membros da banda, de autoria do desenhista Phil Crennel. Originalmente, Trilogy foi lançado com capa dupla.

Parte interna da capa dupla original de Trilogy.

Trilogy chegou às lojas em 6 de julho de 1972. O álbum foi 2º lugar no Reino Unido na parada de álbuns e 5º lugar na Billboard 200, nos Estados Unidos. “From The Beginning” foi o grande hit do álbum, alcançando o 38º lugar nos Estados Unidos, sendo o single mais vendido da carreira do Emerson Lake & Palmer. Os violões e os teclados de “From The Beginning” foram inspiração para Rita Lee e Roberto de Carvalho fazerem os arranjos de “Mania de Você”, sucesso da “rainha do rock brasileiro”, em 1979. “Hoedown” foi a música de abertura dos shows da turnê de Trilogy e da do álbum seguinte, Brain Salad Surgery, de 1973.

O lançamento de Trilogy foi sucedido por uma turnê que passou pela Europa, Estados Unidos e Japão. Com o sucesso de Trilogy e a turnê, o Emerson Lake & Palmer foi ganhando mais projeção e se consolidando como uma das principais bandas do rock progressivo através do álbum Brain Salad Surgery que levaria o trio inglês ao topo. Depois disso, a banda optou pelas extravagâncias e megalomanias que a tonaram um alvo mortal dos punks. 

Faixas:

Lado A

  1. “ The Endless Enigma (Part One)” (Keith Emerson - Greg Lake)
  2. “Fugue” (Keith Emerson)
  3. “The Endless Enigma (Part Two)” (Keith Emerson - Greg Lake)
  4. “From The Beginning” (Greg Lake)
  5. “The Sheriff” (Keith Emerson - Greg Lake)
  6. “Hoedown (Taken From Rodeo)” (Aaron Copland - Keith Emerson - Greg Lake – Carl Palmer)
Lado B

  1. “Trilogy” (Keith Emerson - Greg Lake)
  2. “Living Sin” (Keith Emerson - Greg Lake – Carl Palmer)
  3. “Abaddon’s Bolero” (Keith Emerson)

Emerson, Lake & Palmer: Keith Emerson (órgão Hammond C3, piano, sintetizador Mini Moog Modelo D, sintetizdor Moog III C ), Greg Lake (baixo, guitarras, vocais) e Carl Palmer (bateria e percussão).


The Endless Enigma” completo:
 “ The Endless Enigma (Part One)”,  "Fugue" e 
“The Endless Enigma (Part Two)” 




“From The Beginning”



"The Sheriff"



 “Hoedown (Taken From Rodeo)”



 "Trilogy"



"Living Sin"



"Abaddon's Bolero"

domingo, 26 de novembro de 2017

À Procura Da Batida Perfeita (Sony Music, 2003), Marcelo D2


Marcelo D2 ganhou projeção artística a partir dos anos 1990 como vocalista da Planet Hemp, banda carioca que ficou famosa pelo seu posicionamento polêmico pela legalização da maconha. Em 1998, paralelo à carreira como vocalista do Planet Hemp, D2 lançou o seu primeiro álbum solo, Eu Tiro É Onda, no qual ele já desenvolvia as fusões de rap e samba.

No entanto, é no seu segundo álbum solo, À Procura Da Batida Perfeita, de 2003, que D2 explora mais a fundo as fusões de samba e rap. Para tanto, D2 buscou as referências do passado do samba e do bossa-nova ao utilizar bases de músicas de artistas  como Paulinho da Viola, João Nogueira, Antônio Carlos & Jocafi e Luíz Bonfá para usá-las nas “colagens” musicais através do sample. Com um título tomado emprestado de uma música de Africa Bambaata, “Looking For The Perfect Beat”, À Procura Da Batida Perfeita mantém o senso crítico de D2 dos tempos de Planet Hemp, mas num tom mais ameno, menos agressivo, porém sem abrir mão da contestação. 

Planet Hemp: Marcelo D2 em primeiro plano.
O álbum foi gravado em Los Angeles e contou com a produção do próprio D2, mais David Corcos e Mário Caldato Jr. Este último, um produtor brasileiro que mora nos Estados Unidos desde a infância, mas que nunca se afastou das suas raízes brasileiras, ouvindo desde cedo bossa nova e samba. Como produtor, Caldato se notabilizou por ter produzido os discos dos Beastie Boys. Porém, a relação de D2 e Caldato já vinha de algum tempo. Caldato havia produzido álbuns do Planet Hemp como Os Cães Ladram Mas A Caravana Não Pára (1997) e A Invasão Do Sagaz Homem Fumaça (2000).  

À Procura Da Batida Perfeita abre com a curtíssima “Pra Paternidade”, uma saudação ao samba, ao hip hop, a Tim Maia, Tom Jobim e Elis Regina. Com uma base que usa o violão de Luíz Bonfá sampleado da música “Bonfá Nova”, “À Procura da Batida Perfeita”, faixa que dá nome ao álbum, é uma crítica aos esquemas para se obter fama e sucesso em detrimento ao talento artístico. Em “Vai Vendo”, Marcelo D2 versa cheio de malandragem sobre o congraçamento e o respeito entre os rimadores, pagodeiros e repentistas.

Filho e pai: Stephan e Marcelo D2 em 2003.
Com o cantor Seu Jorge fazendo o backing vocal, “A Maldição Do Samba” é um samba em sua essência, com percussão em primeiro plano e a batida eletrônica como pano de fundo. Além de usar as bases de “Zamba Zen”, música de Marku Ribas, de 1972, o final de “A Maldição Do Samba” traz um trecho sampleado de “Argumento”, sucesso de Paulinho da Viola, de 1975. “Pilotando O Bonde De Excursão” é um funk com um baixo bem destacado, e um ritmo que remete a “Rapper’s Delight”, do Sugar Hill Gang. No rap “Loadeando”, Marcelo D2 faz um dueto com o seu filho Stephan (na época com 12 anos de idade), onde tratam da troca de experiências de vida entre pai e filho.

Sobre uma base que mescla samba, rap e bossa-nova, “Profissão MC” fala sobre o papel do MC na cultura hip hop. “CB (Sangue Bom)” trata de amizade, respeito e da coragem de enfrentar os desafios da vida; a faixa traz a participação especial de Will.I.Am, do Black Eyed Peas. Os versos de “Batidas E Levadas” cita o rapper Aori, e um dos fundadores do Planet Hemp, Skunk, amigo de Marcelo D2 e que havia morrido vítima da AIDS em 1994. “Re-Batucada / Do Jeito Que O Rei Mandou” é uma homenagem aos “arquitetos” da música brasileira, dentre eles, o sambista João Nogueira, um dos ídolos de D2 e do qual sampleou as bases do samba “Do Jeito Que O Rei Mandou”. Com uma base sampleada de “Kabaluerê”, da dupla Antônio Carlos & Jocafi, de 1971, o samba funk “Qual É” traz D2 versando cheio de marra e fechando o álbum em grande estilo.

À Procura Da Batida Perfeita foi aclamado pela crítica. Quanto ao público, este respondeu bem: o álbum vendeu mais de 100 mil cópias. Além de “Qual É”, outras faixas se tornaram hits como “A Maldição Do Samba” e “Loadeando”. À Procura Da Batida Perfeita chegou a ser lançado nos Estados Unidos, Europa e Ásia. A boa recepção internacional do álbum levou Marcelo D2 a fazer turnês no exterior e a participar de festivais como o de Montreaux, na Suíça, e de Roskilde, na Dinamarca.

Faixas 
  1. "Pra Posteridade" (Marcelo D2)
  2. "A Procura Da Batida Perfeita" (David Corcos- Marcelo D2)
  3. "Vai Vendo" (Marcelo D2 - Mário Caldato Júnior)
  4. "A Maldição Do Samba" (Marcelo D2 - Zé Gonzales)
  5. "Pilotando O Bonde da Excursão" (David Corcos - Marcelo D2 - Mauro Berman)
  6. "Loadeando" (Marcelo D2 - Marechal de Souza)
  7. "Profissão MC" (Marcelo D2)
  8. "CB (Sangue Bom)" (David Corcos - Marcelo D2 - Will.i.am)
  9. "Batidas E Levadas" (Marcelo D2)
  10. "Re-Batucada/ Do Jeito Que O Rei Mandou" (Marcelo D2)
  11. "Qual é?" (David Corcos - Marcelo D2)

Ouça o álbum À Procura Da Batida Perfeita
na íntegra (incluindo duas faixas bõnus: 
"Batucada" e "Eu Tiro É Onda").


domingo, 19 de novembro de 2017

“Back In Black” (Atlantic Records, 1980), AC/DC


Vinda da longínqua Austrália, a banda AC/DC estava em ascensão profissional no final da década de 1970. Após ter conquistado a Europa, o grande desafio da banda australiana era conquistar os Estados Unidos, o maior mercado fonográfico do planeta e onde era pouco conhecida. Mas graças ao álbum Highway To Hell que o AC/DC conseguiu ter a tão almejada popularidade nos Estados Unidos. Lá o álbum vendeu mais de 1 milhão de cópias, alcançando o 17º lugar na parada de álbuns e foi contemplado com um disco de platina. No Reino Unido, Highway To Hell chegou ao 8º lugar.

Porém, em pleno sucesso comercial de Highway To Hell, uma notícia abala o AC/DC durante a turnê europeia da banda. Em 19 de fevereiro de 1980, o vocalista Bon Scott foi encontrado morto dentro de um carro por um amigo. Ele teria morrido sufocado pelo próprio vômito, após uma noite de bebedeira em um pub de Londres. A notícia pegou a banda e os fãs de surpresa, num momento em que o AC/DC já estaria planejando o próximo álbum. Com a morte de Scott, os membros do AC/DC cogitaram acabar com o grupo, mas os familiares de Scott os convenceram a continuarem com a banda, em memória do vocalista falecido.

Bon Scott, primeiro vocalista do AC/DC,
morto em fevereiro de 1980.
Por volta de março, foram iniciadas as audições para a escolha de um novo vocalista. Em abril, Brian Johnson, ex-vocal da banda inglesa Georgie, foi anunciado como novo vocalista do AC/DC. A escolha teria sido uma indicação de Robert John “Mutt” Lange, produtor de Highway To Hell, e escalado para produzir o novo álbum do AC/DC que estava por vir.
Acompanhado do produtor e de técnicos, o AC/DC viajou para as Bahamas, onde passaram os meses de abril e maio gravando o novo álbum no Compass Point Studios. Já a mixagem do material gravado foi mixado no Electric Ladyland, em Nova York, nos Estados Unidos.

O novo álbum trouxe algumas referências em memória de Bon Scott, a começar pela capa e pelo título. A ideia inicial era uma capa completamente preta, sem nenhum tipo de imagem ou informação, em sinal de luto a Scott. A gravadora discordou, achou pouco comercial. Sugeriu que ao menos colocassem na capa a logo da banda e o título do álbum, sugestão que acabou aceita pela banda. O título escolhido para o álbum foi Back In Black.

Apesar de ter perdido uma figura tão importante como Bon Scott, o AC/DC demonstrou em Back In Black que estava vivo, pulsante. O álbum começa com a faixa “Hells Bells” cuja abertura traz o badalar solitário e sombrio de um sino. Aos poucos, guitarra, baixo e bateria entram em seguida para depois apresentar a voz rouca e rasgada do então novo vocalista d o AC/DC, Brian Johnson. O significado da faixa é controverso: alguns afirmam que é uma homenagem a Bon Scott, outro que é uma música de fundo satanista por causa de versos como “I got my bell, I'm gonna take you to hell / I'm gonna get ya, Satan get ya...” ( “Eu tenho meu sino, vou te levar para o inferno / Eu vou te pegar, Satanás vai te pegar...”). Por outro lado, críticos dizem que esse tipo de abordagem pela banda não era novo, e que sempre foi encarado como um deboche por parte dos integrantes do AC/DC.

Brian Johnson na difícil da tarefa de
substituir Bon Scott. 
A faixa seguinte é o hard rock contagiante “Shoot To Thrill” que anos mais tarde, em 2010, fez parte da trilha sonora do filme Iron Man 2 (Homem de Ferro 2). A letra tem forte apelo sexual, uma temática, aliás, bastante comum nas músicas do AC/DC. Com riffs de guirarra matadores de Malcolm Young e uma linha de baixo forte de Cliff Williams, “What Do You For Money Honey” é um hard rock sobre uma garota interesseira, “apaixonada” pelo dinheiro dos seus amantes. "Givin The Dog A Bone" é puro duplo sentido com apelo sexual: “She's no Mona Lisa / She's no Playboy star / But she'll send you to heaven / Then explode you to Mars”(“Ela não é nenhuma Mona Lisa / Ela não é nenhuma estrela da Playboy / Mas ela te enviará ao paraíso / Portanto explodirá você rumo a Marte”). Assim como a faixa anterior, "Let Me Put My Love Into You" tem conotação sexual na letra: “I got reputations / Blown to pieces / With my artillery / I'll be guided in / We'll be riding / Given what you got to me” (“Minhas reputações / Estão lá embaixo / Com minha artilharia / Eu serei guiado / Nós vamos cavalgar / Dando o que você tem para mim”).

“Back In Black”, faixa que dá nome ao álbum começa com a marcação no chimbal da bateria de Phil Rudd, seguido por um riff de guitarra arrebatador de Malcolm Young. A música é mais um tributo que a o AC/DC presta a Bon Scott no álbum, cuja letra foi escrita por Brian Jonhson. “Back In Black” celebra a memória de Scott, mas sem tristeza. Ao mesmo tempo, é uma música na qual o AC/DC se mostra uma banda refeita do luto e pronta para seguir em frente. O final é marcado por um solo de guitarra demolidor de Angus Young.

“You Shook Me All Night Long” tem um riff de guitarra marcante na sua abertura. É um hard rock que tem um apelo popular, radiofônico. Mesmo possuindo uma letra com conotação sexual, a faixa soa até “romântica” se comparada às outras faixas com a mesma conotação. Se nas outras faixas mais sexistas, existe uma supremacia do poder masculino com forte teor machista, em “You Shook Me All Night Long” é a mulher quem tem o poder da sedução feminina e o controle da situação, colocando o homem num estado de submissão: “Made a meal outta me / And come back for more / Had to cool me down to take another round / Now I'm back in the ring to take another swing / 'Cause the walls were shaking the earth was quaking...” (“Fez de mim uma refeição / E voltou querendo mais / Tive que me refrescar para ter outra rodada / Agora eu voltei ao ringue para levar outra sacudida / Pois as paredes começaram a balançar a terra estava tremendo...”).

Os irmãos Young: as guitarras incendiárias do AC/DC.

Bon Scott é mais uma vez lembrado em “Have A Drink On Me”, na qual a letra sugere brindar a memória do vocalista morto, o que chega a ser um tanto quanto mórbido, já que Scott morreu por causa da bebida. “Shake A Leg” traz vocais rasgados e desesperados de Brian Johnson, solos fantásticos da guitarra de Angus Young e uma bateria pulsante e viva de Phil Rudd. “Rock And Roll Ain't Noise Pollution” encerra o álbum num ritmo pesado e lento, numa verdadeira declaração de amor e devoção ao rock’n’roll, ressaltando que ele está mais vivo do que nunca: “Rock 'n' roll ain't noise pollution / Rock 'n' roll it will survive” (“Rock n' roll não é nenhuma poluição / Rock n' roll ele sobreviverá”).

Quando Back In Black foi lançado em 25 de julho de 1980, os membros do AC/DC se mostravam apreensivos, preocupados com a reação do público ao ouvir o novo álbum com um novo vocalista de voz bem diferente do falecido Bon Scott. No final de junho de 1980, pouco antes de Back In Black ser lançado, o AC/DC iniciou uma grande turnê mundial do novo álbum que durou até agosto de 1981, passando pela Europa, Estados Unidos, Canadá e Japão.

AC/DC em 1980, durante a turnê Back In Black.

Certamente, o êxito da turnê ajudou no sucesso comercial de Back In Black. Para sorte e surpresa da banda, a reação do público foi mais do que positiva. Back In Black alcançou o 1º lugar na parada de álbuns do Reino Unido, 4º lugar na Billboard 200 nos Estados Unidos, e 1º lugar na Austrália, terra natal do AC/DC. O single de “You Shook Me All Night Long” alcançou o 35º lugar do TOP 40 nos Estados Unidos. Assim como “You Shook Me All Night Long”, “Hells Bells”, “Shoot To Thrill” e a faixa-título, logo caíram no gosto dos fãs.
Desde que foi lançado, Back In Black já vendeu mais de 50 milhões de cópias, tornando-se o segundo álbum mais vendido da história da indústria fonográfica, perdendo apenas para os 65 milhões de cópias de Thriller, de Michael Jackson. Só nos Estados Unidos, Back In Black vendeu mais de 22 milhões de cópias. Seus 50 milhões de cópias vendidas ao longo dos anos tornaram Back In Black o álbum de rock mais vendido em todos os tempos.

Faixas

Lado A
  1. “Hells Bells”
  2. “Shoot To Thrill”
  3. “What Do You Do for Money Honey”
  4. “Givin The Dog A Bone”
  5. “Let Me Put My Love Into You”
Lado B 
  1. “Back In Black”
  2. “You Shook Me All Night Long”
  3. “Have A Drink On Me”
  4. “Shake A Leg”
  5. “Rock And Roll Ain't Noise Pollution”


Todas as faixas foram compostas por Angus Young, Malcolm Young e Brian Johnson.


AC/DC: Brian Johnson (vocais), Angus Young (guitarra solo), Malcolm Young (guitarra base e vocal de apoio) e Cliff Williams (baixo e vocal de apoio) e Phil Rudd (bateria).


Ouça o álbum Back In Black na íntegra.

sábado, 11 de novembro de 2017

“África Brasil” (Philips, 1976), Jorge Ben


Jorge Ben (hoje Jorge Ben Jor) despontou para a música brasileira com o seu primeiro álbum Samba Esquema Novo, em 1963, um trabalho que trouxe um estilo de tocar violão tão inovador que só encontrou paralelo com o violão bossa nova de João Gilberto, do final nos anos 1950. Não havia nada parecido. Durante os anos 1960, Jorge trafegou entre a Jovem Guarda e o Tropicalismo, buscando sempre conciliar o samba do morro e cheio de malandragem com a linguagem pop.

Ao adentrar à década de 1970, Jorge Ben começa a desenvolver um interesse por Filosofia, misticismo, alquimia e cultura afro-brasileira, temas que se tornarão recorrentes nas canções de álbuns como A Tábua de Esmeralda  (1974) e Solta O Pavão (1975). As transformações na música de Jorge não ocorrem apenas tematicamente, mas também musicalmente. Já desde o começo da década de 1970, Jorge agrega à sua música referências de R&B, funk e soul music, mesclando com o samba. O álbum Solta O Pavão é o primeiro da carreira de Jorge Ben em que ele toca guitarra, mas sem deixar o violão. Porém, foi a partir de África Brasil, lançado em 1976, que Jorge passa a dedicar-se apenas à guitarra e “aposenta” o violão. Ele emprega na guitarra elétrica, a mesma levada contagiante que fazia no violão.

Décimo quarto álbum da carreira de Jorge Ben, África Brasil é praticamente um desdobramento de A Tábua de Esmeralda, ao trazer temas como a alquimia e a exaltação da identidade do povo afro-brasileiro. Cercado de músicos talentosíssimos como o tecladista José Roberto Beltrami (responsável também pelos arranjos de orquestra do álbum), o saxofonista Oberdan Magalhães (futuro fundador da Banda Black Rio) e o baterista Wilson das Neves, dentre outros músicos, Jorge produziu África Brasil ao lado do produtor Marco Mazzola, um álbum inovador e assombroso, que ajudaria a definir novos caminhos para a música brasileira.

O filósofo egípcio Hermes Trismegisto.
“Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)” abre África Brasil com uma estupenda linha percussiva, algo que predominará por todo álbum. A música tem como tema o futebol, um universo que Jorge conhece muito bem e está presente em várias de suas canções ao longo de sua carreira. O filósofo egípcio Hermes Trismegisto, que esteve no álbum A Tábua de Esmeralda através da faixa “Hermes Trismegisto E Sua Celeste Tábua De Esmeralda”, retorna no álbum África Brasil por meio da faixa “Hermes Trismegisto Escreveu”, mais uma vez falando do texto escrito pelo filósofo egípcio que traz os sete princípios “herméticos” e que dariam origem à alquimia.

“O Filósofo” possui versos repetitivos e uma base percussiva hipnótica. “Meus Filhos, Meu Tesouro” é uma fusão contagiante de samba e funk. A música fala de um pai e seus filhos trigêmeos, aos quais pergunta o que querem ser no futuro. Arthur Miró quer ser jogador de futebol (Arthur é o nome verdadeiro de Zico, ídolo de Jorge e inspiração na letra). Anabela Gorda, quer ser dona de casa atuante ou mulher de milionário, enquanto que Jesus Correia prefere ser tesoureiro-presidente ou liberal. “O Plebeu” narra a paixão de um homem pobre por uma mulher rica e bem nascida. É uma versão urbana, carioca e cheia de ginga dos contos de fadas.

“Taj Mahal” era uma velha conhecida por já ter sido gravada por Jorge no álbum Ben, de 1972. Em África Brasil ela reaparece numa versão mais elétrica, pesada e num ritmo contagiante. Foi a música plagiada por Rod Stewart para fazer “Da Ya Think I’m Sexy”, em 1978, o que fez Jorge Ben mover uma ação judicial contra o astro britânico.

Abrindo o lado B, “Xica da Silva”, música composta por Jorge Ben especialmente para trilha sonora do filme homônimo do diretor Cacá Diegues, sobre uma ex-escrava tratada como rainha pelo seu amante, o português José Fernandes de Oliveira, um rico explorador de diamantes. A história se passa na província das Minas Gerais, no século XVIII. “História de Jorge” é dotada de um realismo fantástico em sua letra e que provavelmente foi inspirada na infância do próprio Jorge Ben. O futebol aparece mais uma vez neste álbum na faixa “Camisa 10 Da Gávea”, uma clara homenagem a Zico, que despontava no Flamengo e que se tornaria o maior ídolo da história do clube rubro-negro carioca. A música segue num ritmo samba funk sedutor, e que combina muito bem como trilha sonora de vídeo com os maiores gols do “galinho de Quintino”, como Zico era carinhosamente chamado pela torcida. 

Jorge Ben com sua guitarra e cercado pelos músicos que gravaram o álbum África Brasil

Após a mística e de percussão hipnótica, “Cavaleiro Do Cavalo Imaculado”, a faixa “África Brasil (Zumbi)”, fecha o álbum em grande estilo. A música é na verdade uma regravação de “Zumbi”, faixa do álbum A Tábua de Esmeralda. A nova versão ganhou um título diferente e um arranjo mais elétrico, com um ritmo inspirado no funk e percussão mais pesada. Jorge canta de um maneira mais agressiva e libertária, exaltando Zumbi dos Palmares, o líder do Quilombo dos Palmares no século XVII.

África Brasil é um trabalho que consolida o processo de fusão buscado por Jorge Ben entre a música afro-brasileira com a soul music e o funk. O álbum mostra o artista direcionando a sua música para um caminho mais pop, e esse processo de fusão de Jorge se tornou referência para o caldeirão musical do movimento Black Rio, em meados dos anos 1970. A contribuição de África Brasil não se restringe apenas à música, mas também à valorização da autoestima da população negra no Brasil ao dar visibilidade a figuras importantes da História do Brasil como Zumbi dos Palmares e Xica da Silva. O álbum aparece num momento em que o movimento negro ganha força no país, em plena ditadura militar, reivindicando direitos para a população negra brasileira, e defendendo a sua identidade e o seu legado cultural.

Faixas

Lado A

 "Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)" 
"Hermes Trismegisto Escreveu" 
"O Filósofo"      
"Meus Filhos, meu Tesouro"    
"O Plebeu"        
"Taj Mahal"
               
Lado B 
               
"Xica da Silva" 
"A História de Jorge" 
"Camisa 10 da Gávea" 
"Cavaleiro do Cavalo Imaculado"            
"África Brasil (Zumbi)" 


Todas as canções são de autoria de Jorge Ben Jor. 


Ouça na íntegra o álbum África Brasil

sábado, 4 de novembro de 2017

10 discos essenciais: power trio


Formado por um guitarrista, um baixista e um baterista (tendo um dos três fazendo o vocal), o power trio ganhou projeção dentro do rock’n’roll a partir dos anos 1960 através do supergrupo Cream, que mostrou ao mundo que um trio de rock poderia fazer um som pesado, poderoso e agressivo. De lá pra cá, muitos power trios apareceram e cravaram seus nomes na história do rock, seja através de shows memoráveis ou de discos fabulosos. Falando neles, confira alguns dos 10 discos essências de power trio que marcaram época no rock.

  
Are You Experienced (Track, 1967), The Jimi Hendrix Experience. As primeiras apresentações do power trio formado pelo guitarrista Jimi Hendrix e os parceiros Noel Redding (baixo) e Mitch Mitchell (bateria), assombraram até mesmo rockstars consagrados como Paul McCartney e Pete Towshend. O som poderoso do trio foi traduzido para o álbum Are You Experienced, o primeiro da banda. Aqui, o trio mescla blues, rock, jazz e psicodelia, com direito às distorções alucinantes da guitarra de Hendrix. Fazem parte deste álbum as clássicas “Foxy Lady"  e “Are You Experienced?”, porém “Purple Haze”  e ‘Hey Joe” saíram apenas na edição norte-americana. 



Disraeli Gears (Reaction, 1967), Cream. Até onde se tem notícia, o Cream não só foi o primeiro supergrupo (banda formada por músicos já consagrados) como também o primeiro power trio da história do rock. Formado por Eric Clapton (guitarra), Jack Bruce (baixo e vocais) e Ginger Baker (baterista), o Cream combinava o peso e a distorção do blues rock com os experimentos e “viagens” da psicodelia, uma receita musical presente em Disraeli Gears, o segundo e talvez mais importante álbum do power trio inglês. “Strange Brew“’, Sunshine Of Your Love”, “Tales Of Brave Ulysses” são as faixas principais do álbum desta banda que foi uma das precursoras do hard rock.



Vincebus Eruptum (1968, Philips), Blue Cheer. Formada em San Francisco, Califórnia, em 1967 como um sexteto, o Blue Cheer entrou para a história do rock quando tornou-se um power trio com Dickie Peterson (baixo e vocal), Leigh Stephens (guitarra) e Paul Whaley (bateria) fazendo um som demolidor. A banda pegou o blues elétrico e injetou nele distorção e peso intensos a tal ponto dos seus shows serem simplesmente ensurdecedores para os padrões roqueiros do final dos anos 1960, antecipando o que seria conhecido mais tarde como heavy metal. Vincebus Eruptum traz versões pesadas e reinventadas de “Summertime Blues", de Eddie Cochran, e de "Rock Me Baby", de B.B. King, além de composições próprias do trio como a quilométrica “Doctor Please” e a caótica “Second Time Around”.



2112 (Mercury, 1976), Rush. O Rush estava com a corda no pescoço com o fracasso comercial do álbum Caress of Steel, de 1975. Com shows minguados e a conta bancária quase vazia, o Rush ainda corria o risco de ser dispensado pela gravadora, a menos que a banda gravasse um álbum mais comercial, sem faixas “quilométricas” como as do álbum anterior. Um acordo entre banda e gravadora atendeu a ambos os lados. Se o lado A possui apenas uma faixa de 20 minutos dividida em sete partes, o lado B do álbum trazia cinco faixas, músicas curtas e “acessíveis” como a gravadora queria. 2112 foi um grande sucesso e fez o Rush recuperar o prestígio. Com ele a banda encontraria um caminho para consolidar o seu estilo de som.



Reggatta de Blanc (A&M, 1979), The Police. Com os fundamentos da música punk debaixo do braço e a musicalidade jamaicana na cabeça, o Police partiu com tudo para o seu segundo álbum, Reggatta de Blanc. Apesar da boa recepção do primeiro álbum Outlandos d'Amour, foi com Reggatta de Blanc que o Police conquistou o estrelato graças a uma costura bem feita de reggae, pop e new wave, e ao entrosamento competente de Sting (vocais e baixo), Andy Summers (guitarra) e Stewart Copelland (bateria). O álbum emplacou os hits “Message In A Bottle” e “Walking On the Moon”.




Ace Of Spades (Bronze Records, 1980), Motörhead. No quarto álbum do Motörhead, Lemmy Kilmister (vocal e baixo), Fast Eddie Clarke (guitarra) e Phil Taylor (bateria) consolidaram o estilo de som pesado e veloz que a banda já vinha desenvolvendo desde os álbuns anteriores ao agregar elementos do punk ao heavy metal, apontando caminhos que desembocariam em vertentes do heavy metal que surgiriam pouco tempo depois, como speed metal e o thrash metal. Ace Of Spades é matador do início ao fim, merecendo destaques a faixa-título, “Love Me Like A Reptile”, “Shoot You In The Back”, “Jailbait” e “The Hammer”.

 

Selvagem? (EMI-Odeon, 1986), Os Paralamas do Sucesso. Sem sombra de dúvidas, o mais bem sucedido power trio do rock brasileiro. O seu formato power trio tinha uma sonoridade muito espelhada no The Police, também power trio. Mas isso mudou a partir do terceiro álbum, Selvagem?, quando a banda decide abandonar os cânones da new wave e abraçar as referências do reggae, da música caribenha e da música brasileira. Destaques para o questionamento social de “Alagados” e “A Novidade”, o discurso politizado de “Selvagem” e à versão reggae de “Você”, antigo sucesso do soul man brasileiro Tim Maia.



A Revolta dos Dândis (RCA, 1987), Engenheiros do Hawaii. Em seu segundo álbum, A Revolta dos Dândis, de 1987, os Engenheiros passaram por mudanças. A primeira foi a saída do baixista Marcelo Pitz. Entrou o guitarrista Augusto Licks, enquanto que Humberto Gessinger, que era o guitarrista assumiu o baixo, mas manteve-se nos vocais. Carlos Maltz permaneceu na bateria. A segunda mudança foi musical: o trio deu adeus ao som pop do primeiro disco e seguiu rumo ao som mais maduro, questionador, e a sonoridade aproximou-se do folk rock e do rock progressivo. A filosofia existencialista de Albert Camus e Jean-Paul Sartre exerceu forte influência nas letras do álbum e fez o trio gaúcho decolar e se tornar uma das bandas mais populares do rock brasileiro no final dos anos 1980.


Nevermind (DGC, 1991), Nirvana. Quando foi lançado, Nevermind causou um abalo sísmico no cenário do rock mundial como não se via desde Never Mind The Bollocks, Here’s The Sex Pistols, em 1977. Ambos os álbuns têm em comum a fúria e o fato de serem obras nascidas dos porões do underground do rock. A diferença é que Nevermind acabou indo muito além ao derrubar medalhões das paradas de sucesso como Michael Jackson e U2, vender mais de 10 milhões de cópias (aumentando essa marca no decorrer do tempo), sem qualquer marketing milionário e colocar o som grunge no mapa mundial da música pop.



Dookie (Reprise, 1994), Green Day. O terceiro álbum do Green Day catapultou o power trio californiano para as grandes plateias e deu um novo vigor ao velho e bom punk rock. Misturando peso, velocidade, fúria, humor e linhas melódicas, o álbum vendeu mais de 20 milhões de cópias graças ao poder de fogo de faixas como  “Welcome To Paradise”, “Basket Case”, “When I Come Around”, “She” e “Longview”. O álbum foi um dos responsáveis pela popularização do pop punk, para desespero dos punks mais “ortodoxos”.