sábado, 14 de outubro de 2017

10 discos essenciais: álbuns duplos


O álbum duplo surge pouco depois da criação do LP. Enquanto o LP aparece em 1948 através da gravadora Columbia Records, nos Estados Unidos, o álbum duplo, trazendo dois LP’s, surge em 1950, tendo como primeiro lançamento nesse formato The Famous 1938 Carnegie Hall Jazz Concert, de Benny Goodman, também pela Columbia, álbum duplo com gravação ao vivo de uma apresentação do jazzista e sua orquestra no Carnegie Hall, em Nova York, em 1938. Mas o primeiro álbum duplo gravado em estúdio só veio em 1964, com Verlaine et Rimbaud, de Léo Ferré trazendo 24 faixas a partir de poemas musicados dos poetas Paul Verlaine e Arthur Rimbaud.

Porém, o formato álbum duplo só veio ganhar uma viabilidade comercial na música popular através do rock nos anos 1960. Blonde On Blonde, de Bob Dylan, lançado em maio de 1966, foi o primeiro álbum duplo da história do rock, e no mês seguinte, Freak Out!, dos Mothers of Invention, o segundo do álbum duplo do gênero. A partir da segunda metade dos anos 1960, o experimentalismo no rock passou a se valer dos avanços da tecnologia de gravações de discos e a exigir mais espaço nos discos, o que acabou fazendo o formato álbum duplo ser bastante explorado, tanto do ponto de vista musical quanto visual, já que o álbum duplo exigia capa dupla, geralmente com uma arte gráfica bem mais caprichada.

O auge dos álbuns duplos foi a década de 1970, tendo o rock progressivo como o gênero que mais explorou esse formato, chegando até a lançar álbuns triplos. Porém, não era um formato exclusivo do rock progressivo, havendo lançamentos nesse formato em outros gêneros musicais que tiveram ótimos resultados comerciais apesar de serem mais caros do que um álbum simples. Com o advento do CD a partir dos anos 1980, os álbuns duplos foram perdendo espaço, já que o tempo de um álbum duplo em vinil cabia perfeitamente num CD. No entanto, alguns títulos lançados originalmente como álbum duplo em vinil, se mantiveram como álbum duplo em CD, provavelmente para manter a tradição do formato duplo original.  


Blonde On Blonde (Columbia, 1966), Bob Dylan. Considerado o primeiro álbum duplo da história do rock, Blonde On Blonde consolida o processo de eletrificação da música de Bob Dylan, iniciada com o álbum Bringing It All Back Home (1964), causando a ira dos fãs mais radicais, mas conquistando novos públicos que passaram a apreciar o trabalho do cantor. Dylan vivia um dos períodos mais criativos e férteis da sua carreira, o que só comprova o fato de ter produzido um álbum duplo como Blonde On Blonde, gravado em Nashville e acompanhado do The Hawks, banda que depois seria rebatizada com o nome de The Band. Tido como denso e melancólico, mesclando folk rock, blues e country music, Blonde On Blonde começa com a faixa “Rainy Day Women #12 & 35”, que foi banida das rádios na época por trazer o verso “Todo mundo deve ficar chapado”. “Just Like A Woman”, “Visions Of Johanna” e “I Want You” (regravada em português pelo Skank nos anos 1990) são alguns dos destaques do álbum.  


Electric Ladyland (Track, 1968), The Jimi Hendrix Experience. Após dois excelentes álbuns, o power trio Jimi Hendrix Experience lança o que é considerado o seu melhor álbum, Electric Ladyland. Este álbum duplo foi produzido pelo próprio Hendrix e nele o guitarrista pode dar vazão à sua explosão criativa e fazendo uso de toda a tecnologia de gravação disponível na época. O resultado foi um álbum eclético que vai do soul psicodélico ("Have You Ever Been (To Electric Ladyland)" ao blues lisérgico e viajante ("Voodoo Chile") passando pelo experimentalismo e efeitos sonoros ("…And The Gods Made Love" e "Moon, Turn The Tides… Gently Away"). Destaques para "Crosstown Traffic", "Voodoo Child (Slight Return)" e "All Along The Watchtower", esta última de Bob Dylan à qual Hendrix deu uma nova e definitiva interpretação.


The Beatles (Apple Records, 1968), The Beatles. Mais conhecido como The White Album ("álbum branco"), é o primeiro e único álbum duplo de inéditas dos Beatles, e o primeiro lançamento do selo Apple Records. Foi gravado após o retiro espiritual dos Beatles na Índia com o guru Maharishi Mahesh Yogi. As sessões de gravação do álbum foram marcadas por muita tensão, egos inflados e desentendimentos, iniciando o começo do fim da banda. The Beatles, o álbum, mostra a banda redirecionando a sua música, deixando para trás os excessos e as “gorduras” dos três álbuns anteriores, dando adeus à psicodelia e indo em direção a um tipo de música mais enxuta e menos rebuscada. Apesar de todo o caos da produção, o resultado final foi positivo, trazendo faixas memoráveis como “"Back In The U.S.S.R.”, “While My Guitar Gently Weeps”, “Helter Skelter”, “Dear Prudence”, "Blackbird” dentre outras.  


Exile On Main St. (Rolling Stones Records, 1972), The Rolling Stones. Fugindo das cobranças de impostos na Inglaterra, os Rolling Stones se refugiaram num vilarejo próximo a Nice, sul da França, onde alugaram uma mansão, e num porão, improvisaram um estúdio. O local com estrutura precária para gravação, somado às farras regadas a muita bebida e drogas, dava a entender que dali não sairia nada. Porém, não só saiu alguma coisa, como saiu em fartura: um material que rendeu um álbum duplo, Exile on Main St. O álbum mostra os Stones inspirados no velho blues (“Sweet Black Angel”, “Shake Your Hips” e “Sweet Virginia”), na country music (“Torn And Frayed”), no gospel (“Tumbling Dice”) e mostrando as garras em rocks afiados ( “Rocks Off” e “Happy”).


Clube da Esquina (EMI-Odeon, 1972), Milton Nascimento. Milton Nascimento já era um artista famoso quando convidou o jovem Lô Borges, então com cerca de 19 anos de idade,  para dividir com ele o álbum duplo Clube da Esquina. Milton já havia gravado anteriormente canções de Lô, como “Para Lennon e McCartney”, “Alunar” e “Clube da Esquina” (esta última, uma parceria de Milton, Lô e Márcio Borges), as três do álbum Milton (1970). Para a gravação do álbum duplo, Milton e Lô cercaram-se de companheiros da cena musical de Minas Gerais como Beto Guedes, Wagner Tiso, Toninho Horta entre outros. Com uma musicalidade que mescla referências de Beatles (safra 1969), folk rock, rock progressivo com a música do interior de Minas Gerais, tudo emoldurando uma riqueza poética nas letras, Clube da Esquina foi muito além de apenas um álbum duplo brilhante, batizou com seu nome um movimento musical que se tornou um dos mais importantes da música popular brasileira. Dentre as suas 21 faixas, algumas se tornaram clássicos da música brasileira como “O Trem Azul”, “Um Girassol Da Cor Do Seu Cabelo”, “Paisagem Da Janela” e “Nada Será Como Antes”.


Goodbye Yellow Brick Road (DJM, 1973), Elton John.  Após uma sequência de excelentes álbuns como Madman Across The Water (1971), Honky Château (1972) e Don't Shoot Me I'm Only The Piano Player (1973), Elton John chega à consagração com o álbum duplo Goodbye Yellow Brick Road, em 1973. O álbum ratifica o alto nível da parceria Elton John-Bernie Taupin como hitmakers, já mostrado nos álbuns anteriores. Dentre as faixas de Goodbye Yellow Brick Road, algumas se tornaram clássicos da carreira de Elton John como “Candle In The Wind”, “Bennie And The Jets”, “Saturday Night's Alright For Fighting”, a quilométrica “Funeral For A Friend/Love Lies Bleeding” e a faixa-título. Goodbye Yellow Brick Road vendeu mais de sete milhões de cópias e fez de Elton John um astro de primeira grandeza do rock, lotando estádios e arenas, vestindo figurinos extravagantes e usando óculos dos mais esquisitos.


Physical Grafitti (Swang Song, 1975), Led Zeppelin. Physical Grafitti é o ápice criativo do Led Zeppelin que vinha numa ótima sequência de álbuns desde o primeiro, Led Zeppelin, de 1969. Já a partir do quarto álbum, Houses Of The Holy (1973), o quarteto inglês demonstrava interesse de ir além da fórmula hard rock/blues/folk music que o consagrou nos primeiro três discos. Physical Grafitti seria na prática, uma evolução do álbum anterior. Neste álbum duplo, o Led Zeppelin amplia o seu leque musical abrangendo o rock progressivo, pop, música indiana e funk , mostrando-se uma banda mais eclética do que por exemplo, o Deep Purple e o Black Sabbath, que juntas com o Led compõem na minha opinião, a “santíssima trindade do rock pesado”. “Kashmir”, “Trampled Under Foot”, “Houses Of The Holy”, “Bron-Yr-Aur” e “In My Time Of Dying” são alguns dos melhores momentos deste álbum duplo magnífico.


Songs In The Key Of Life (Motown, 1976), Stevie Wonder. A Motown havia apostado uma grana alta na renovação de contrato com Stevie Wonder, após uma sequência de álbuns muito bem avaliados pela crítica e com ótimos desempenhos comerciais. No entanto, a demora na produção do ambicioso Songs In The Key Of Life preocupou a Motown. Porém, a espera do lançamento do valeu à pena. Além de ser álbum duplo, Songs In The Key Of Life trazia de brinde uma EP com mais 4 faixas, um deleite total para os fãs. Abordando temas como amor, racismo, política, fé e conflitos sociais, Songs In The Key Of Life emplacou hits memoráveis como “Isn't She Lovely” e “Sir Duke”, conquistou quatro prêmios Grammy, e tornou-se um dos mais importantes álbuns da história da soul music e do R&B.


London Calling (Columbia, 1979), The Clash. O Clash surpreendeu em todos os aspectos quando lançou, no final de 1979, London Calling, seu terceiro álbum. Para começar, lançando um álbum duplo, mas vendido ao preço de um álbum simples, a pedido do Clash. Em segundo, a banda mostra-se musicalmente bem diversificada, experimentando com reggae e ska (algo que na verdade já assinalava desde o primeiro álbum), e também com jazz, funk e pop. No entanto, o discurso politizado e engajado continua afiado. Temas como violência, consumismo, racismo, drogas, desemprego e política estão presentes em London Calling. O álbum deu projeção ao Clash no mercado norte-americano e foi 9º lugar no Reino Unido. London Calling é presença garantida nas listas de melhores álbuns de rock de todos os tempos.  Destaques para as faixas “London Calling”, “Spanish Bombs”, “Lost In The Supermarket” e “The Guns Of Brixton”.


The Wall (Harvest, 1979), Pink Floyd. A turnê do álbum Animals (1977), deixou o baixista Roger Waters horrorizado com a idolatria desenfreada dos fãs do Pink Floyd, com os shows e as estruturas gigantescas em estádios lotados e com o estrelato a que a banda havia chegado. Tal situação de pavor inspirou Waters a criar o conceito do próximo álbum do Pink Floyd, The Wall, contando a história de Pink, um rock star que rebela-se contra o seu próprio público fanático e com a vida de astro do rock, culpando a superproteção da mãe, a ausência do pai (morto numa guerra) e as drogas pelas suas frustrações; isola-se de tudo e de todos atrás de um muro imaginário, daí o título do álbum. Para desenvolver a história do personagem fictício nas canções do álbum, Waters inspirou-se na sua própria vida ( seu pai morreu na 2ª Guerra Mundial, deixando a esposa grávida dele ) e um pouco na de Syd Barret (onde entra aí a vida conflituosa de Pink como astro do rock). O álbum inspirou o filme Pink Floyd – The Wall, de Alan Parker, lançado em 1982. “Another Brick In The Wall, Part 2”, “Comfortably Numb”, “Run Like Hell” e “Hey You” foram os hits deste álbum duplo. 

sábado, 7 de outubro de 2017

“Roberto Carlos Em Ritmo De Aventura” (CBS, 1967), Roberto Carlos


O ano de 1967 foi mais do que movimentado para o “Rei” Roberto Carlos. Ele estava no auge da popularidade como astro do Jovem Guarda, programa que comandava ao lado de Erasmo Carlos e Wanderléa na TV Record nas tardes de domingo, vendia milhões de discos e emplacava fileiras intermináveis de hits, e firmava-se como o maior ídolo da juventude brasileira. Mas naquele ano, além dos shows e do programa de TV, Roberto iniciava um novo desafio: a carreira cinematográfica.

Entre setembro e novembro de 1967, sob a direção de Roberto Farias, foi rodado o filme Roberto Carlos Em Ritmo de Aventura, longa metragem protagonizado por Roberto Carlos e inspirado em Help!, dos Beatles, dirigido por Richard Lester. Com cenas rodadas no Rio de Janeiro, São Paulo e Nova York, o filme tem muita ação, aventura e certa ingenuidade. No filme, Roberto tenta fugir de sequestradores estrangeiros. 

E para enfrentá-los, Roberto briga, dirige carrões, tanque de guerra, lança granada “imaginária” e até viaja no espaço sideral. Algumas cenas foram filmadas no Cabo Kennedy, nas instalações da NASA, nos Estados Unidos. Em algumas cenas de ação, Roberto dispensou dublês. Uma das cenas antológicas do filme é a de Roberto pilotando um helicóptero que passa por dentro do Túnel do Pasmado, no Rio de Janeiro. Na verdade, nessa antológica e perigosíssima cena, o aparelho foi guiado por um piloto profissional. Todas as cenas foram alternadas por números musicais num ritmo de vídeo clipe, o que fez o filme ser uma obra pop por excelência.

Roberto Carlos fugindo dos bandidos internacionais no filme
em cena rodada no Corcovado, Rio de Janeiro. 

E esses números musicais do filme tiveram como base o álbum que dá nome ao filme e que serviu de trilha sonora. Sob a produção de Evandro Ribeiro, o álbum Roberto Carlos em Ritmo de Aventura foi gravado entre agosto e outubro de 1967. Quando o filme começou a ser rodado, o álbum já estaria em processo de finalização, o que facilitou nas gravações das cenas musicais do longa metragem.

Para a gravação do álbum, Roberto Carlos foi acompanhado por duas bandas, a sua, a RC-7, e a Renato & Seus Blue Caps, esta última já consagrada como uma das mais importantes da Jovem Guarda. Além de gravar seus próprios discos, Renato & Seus Blue Caps era uma banda que costumava tocar na gravação dos discos de boa parte dos ídolos da Jovem Guarda. Outra presença na gravação do álbum foi a do tecladista Lafayette, acompanhado do órgão Hammond. Das doze faixas de Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, cinco eram de Roberto, seis eram de outros autores, e apenas uma era da dupla Roberto-Erasmo.

Cena espetacular do helicóptero passando por um túnel.

Apesar de contar com o apoio de duas bandas de rock nas sessões de gravação, Roberto decide fazer algo diferente no seu novo trabalho. Inspirado nos álbuns Rubber Soul e Revolver, dos Beatles, ou mesmo Pet Sounds, dos Beach Boys, que já experimentavam como o pop barroco e as orquestrações, Roberto decide incluir no seu novo álbum quarteto de cordas, violão de doze cordas, metais, cravo e flauta. Para tanto, Roberto recorre aos músicos veteranos da orquestra e metais da gravadora CBS que com o advento do rock’n’roll, vinham perdendo espaço nas gravações em disco para os instrumentos modernos como guitarras, baixos elétricos, teclados e baterias.

RC-7, banda de acompanhamento de Roberto Carlos.
Vale destacar que para este novo álbum, Roberto havia ampliado a sua banda, outrora RC-4, de quatro músicos para sete com a inclusão de uma sessão de metais formada por três músicos: Raul de Souza (trombone), Ernesto Neto (saxofone) e Magno D’Alcântara Pereira (trompete). Isso fez a banda ser renomeada de RC-4 para RC-7.

Até pouco antes da gravação do álbum, Roberto Carlos e Erasmo Carlos haviam rompido amizade após um desentendimento. Apareciam juntos apresentando o programa Jovem Guarda por causa dos compromissos contratuais, fora dali não estavam se falando. Para o seu novo álbum, Roberto assinou sozinho cinco faixas. Mas havia uma sexta que ele não conseguia terminar, pois estava sem tempo por causa dos shows, das gravações do disco e do filme. Sem conseguir finalizar a música, acabou tendo que recorrer à ajuda do velho parceiro com o qual estava rompido. Erasmo acabou ajudando Roberto terminar a música, e a amizade entre os dois retornou.

A música que Erasmo ajudou Roberto a terminar foi “Eu Sou Terrível”, e foi a última do álbum a ser gravada, mas é a primeira a abrir o álbum.  E valeu a pena, é um dos rocks mais marcantes já gravados por Roberto. A faixa é contagiante, traz um incrível solo de gaita e um marcante naipe de metais. Em seguida vem “Como É Grande O Meu Amor Por Você”, canção composta por Roberto na qual ele é acompanhado por flauta e violão. A canção se tornaria um dos maiores sucessos da carreira do astro da Jovem Guarda. Também composta apenas por Roberto, “Por Isso Corro Demais” começa com o ruído de carro a toda velocidade e que se repete durante toda a faixa. Nesse rock balada, Roberto corre com seu carro possante e veloz para rever a sua garota. O solo de órgão Hammond, executado por  Lafayette, contrasta com os ruídos de pneus do carro.

Lafayette: o mais requisitado tecladista da
Jovem Guarda.
Em “Você Deixou Alguém A Esperar”, de Édson Ribeiro e Helena Santos, Roberto pede para que sua amada esqueça que a fez chorar e pede para voltar. Ter tanto amor longe de quem se ama é o que Roberto questiona no rock “De Que Vale Tudo Isso”, outra música composta apenas por ele que traz mais uma vez Lafayette pilotando brilhantemente o seu órgão Hammond. A romântica, “açucarada” e singela “Folhas De Outono” fecha o lado A do álbum.

“Quando” abre o lado B e é mais um rock de Roberto com letra dotada de romantismo. Possui uma levada rítmica inspirada em “Taxman”, do Beatles. Lafayette faz um dos mais memoráveis solos de órgão de Hammond da Jovem Guarda. O trio de metais da RC-7 tem uma participação importante em “Quando”, fazendo uma espécie de “chamada e resposta”, ora em alguns versos que Roberto canta, ora com os solos de órgão de Lafayette. A faixa seguinte, a doce e ingênua “É Tempo De Amar”, é sobre o fim de um romance, onde o “Rei” consola uma garota que chora por um amor que acabou.

Renato & Seu Blue Caps gravaram a base
instrumental de algumas faixas; destaque para 
os irmãos Barros: o baixista Paulo César (centro
 de cima)  e o vocalista guitarrista 
Renato (abaixo à esquerda).
“Você Não Serve Pra Mim” é um rock de letra raivosa, um desabafo, onde Roberto põe fim a um relacionamento. Esta faixa foi composta por Renato Barros, vocal e guitarrista da banda Renato & Seus Blue Caps. Essa banda é quem acompanha Roberto em “Você Não Serve Pra Mim”, um dos melhores rocks gravados pelo líder da Jovem Guarda. Renato Barros faz uso de pedal fuzz na guitarra, que emprega distorção e um som “sujo” ao instrumento, dando assim um tom de agressividade à música que casa muito bem com canto cheio de raiva, mágoa e desprezo de Roberto. Além de Renato, merecem destaque em “Você Não Serve Pra Mim” o tecladista Lafayette, que faz um belo pano de fundo com o órgão Hammond que remete ao órgão dos Doors, e ao baixo pulsante de Paulo César Barros, irmão de Renato e integrante da Renato & Seus Blue Caps. 

A fúria de “Você Não Serve Pra Mim” é sucedida pela delicadeza de “É Por Isso Estou Aqui”. Nesta canção, Roberto demonstra que estava em sintonia com o pop barroco, tendência que estava em voga no rock internacional entre 1966 e 1968, quando a música pop flertava com a música erudita, adotando o emprego de quarteto de cordas e cravo. É nesta faixa que a experiência dos músicos veteranos da orquestra de cordas e metais da CBS teve um papel importante, dando à canção o tom barroco que Roberto queria. Além das cordas, há também o som que seria o de um cravo.

Cartaz do filme Roberto Carlos
 Em Ritmo de Aventura
.
Se o romantismo e a “dor de cotovelo” dão o tom temático em todo o álbum, o humor de “O Sósia” destoa de todo o resto de Roberto Carlos Em Ritmo de Aventura. A faixa conta a história de um sujeito que se fazia passar por Roberto Carlos por ser parecido com o ídolo, mas que no final é desmascarado quando a farsa é revelada. Fechando o álbum, o rock balada “açucarado”, “Só Vou Gostar De Quem Gostar De Mim”.

Sétimo álbum da carreira de Roberto, Roberto Carlos em Ritmo de Aventura foi lançado em novembro de 1967. Já o filme homônimo estreou nos cinemas em fevereiro de 1968, e teve um público estimado em mais de 2,5 milhões de espectadores. Quase todas as faixas do álbum se tornaram sucessos instantâneos e duradouros na carreira de Roberto como "Eu Sou Terrível", "Como É Grande o Meu Amor por Você", "Por Isso Corro Demais", "Quando" e "Você Não Serve Pra Mim".

Roberto Carlos em Ritmo de Aventura marca um momento de transição na carreira do astro da Jovem Guarda, quando este começaria a se inclinar para a soul music, influenciado pelo som da Motown, ainda que discretamente. Mas tal inclinação se tornaria mais evidente a partir do álbum seguinte, O Inimitável, de 1968.

Faixas:

Lado A
  1. "Eu Sou Terrível" (Roberto Carlos - Erasmo Carlos)
  2. "Como É Grande O Meu Amor Por Você"
  3. "Por Isso Corro Demais"
  4. "Você Deixou Alguém A Esperar" (Édson Ribeiro)
  5. "De Que Vale Tudo Isso"
  6. "Folhas De Outono" (Francisco Lara - Jovenil Santos) 


Lado B 
  1. "Quando"
  2. "É Tempo De Amar" (Pedro Camargo - José Ari)
  3. "Você Não Serve Pra Mim" (Renato Barros)
  4. "E Por Isso Estou Aqui"
  5. "O Sósia" (Getúlio Côrtes)
  6. "Só Vou Gostar De Quem Gosta De Mim" (Rossini Pinto)


Todas as faixas são de autoria de Roberto Carlos, exceto as indicadas.




Ouça na íntegra o álbum Roberto Carlos em 
Ritmo de Aventura



"Eu sou Terrível"



"Por Isso Corro Demais"



"Quando"



"Você Não Serve Pra Mim"








sábado, 30 de setembro de 2017

“The Miseducation Of Lauryn Hill” ( Ruffhouse / Columbia, 1998 ), Lauryn Hill


Os Fugges foram um dos grandes nomes da música pop de 1996, graças ao álbum The Score que vendeu mais de 6 milhões de cópias, três hits (“Killing Me Softly With This Song”, “Fu-Gee-La” e “Read Or Not”) e vários premiações. Após tanta exposição, cada membro do trio norte-americano decidiu dedicar-se a projetos artísticos pessoais.

Wyclef Jean lançou em 1997, o seu primeiro álbum solo, The Carnival. No mesmo ano, Pras Michel lançou juntamente com a cantora Mýa e o rapper Ol' Dirty Bastard o single “Ghetto Supastar (That Is What You Are)”, vindo a lança o eu primeiro álbum solo no ano seguinte, o Ghetto Supastar.  

Lauryn Hill havia colaborado nas gravações do primeiro álbum solo de Wyclef Jean, o que a motivou a também a gravar o seu primeiro álbum solo.  Ela estava grávida de seu primeiro filho, fruto do seu relacionamento com Rohan Marley, filho de Bob Marley. A ideia teve que ser temporariamente adiada, pois Hill havia passado por uma espécie de bloqueio criativo para compor material para um álbum.

Fugges: Lauryn Hill entre Wyclef Jean e Pras Michel. 
A gravidez parece ter vindo a calhar. Durante esse período, Hill compôs cerca de 30 músicas, material suficiente para dois álbuns. Em agosto de 1997, seu filho, Zion David nasceu. Após dar a luz e o resguardo, foi convidada a escrever canções para os discos de estrelas como Aretha Franklin, Whitney Houston e demais artistas. Todas essas experiências serviram combustível para Lauryn Hill conceber o seu primeiro álbum solo. O processo de gravação do álbum se deu entre o final de 1997 e junho 1998 em estúdios diferentes, como o Chung King (Nova York), Perfect Pair (Nova Jersey) e o Tuff Gong Studios (Kingston, Jamaica), este último, onde Bob Marley gravou alguns dos seus álbuns mais importantes.

Quase um ano depois do início de suas gravações, o álbum de estreia de Hill, intitulado The Miseducation Of Lauryn Hill é lançado em 25 de agosto de 1998. O álbum é marcado pela mescla de elementos de rap, soul, gospel, R&B e reggae. Em seu primeiro álbum, Lauryn Hill mostra toda a sua qualidade artística, incorporando a alma das divas da soul music e o estilo das ruas e das quebradas dos rappers.

O soar de uma campanhia de escola abre o álbum na pequena faixa introdutória “Intro”, onde uma voz que parece ser a de um professor faz a chamada dos alunos. O rap “Lost Ones” dá início para valer ao álbum, já mostrando Lauryn Hill falando de sua emancipação feminina e da sua liberdade como artista. “Ex- Factor” acalma o clima com o seu teor romântico sobre um relacionamento que acabou. A maternidade é o tema central de “To Zion”, homenagem que Hill fez ao seu filho; a música conta com a participação especial de Carlos Santana na guitarra. “Doo Wop (That Thing)” toda carga feminista de Lauryn Hill. O balanço de “Superstar” mescla  soul music e rap, enquanto que “Final Hour” é um rap com uma batida contagiante.

Mary J. Blidge e Lauryn Hill: dueto em
“I Used To Love Him”.
“When It Hurts So Bad” é uma canção que fala das dores do amor, e aqui, Lauryn demonstra mais uma vez que é uma grande cantora de soul music.  “I Used To Love Him” é uma canção sobre desilusão amorosa, onde Hill faz dueto com a cantora Mary J. Blidge. “Forgive Them Father” é um misto de oração e desabafo sobre as mazelas pelas quais passam os pobres e injustiçados. Na autobiográfica “Every Gheto, Every City”, Lauryn  Hill lembra dos momentos difíceis e alegres do seu passado, cantando sobre uma base rítmica bem animada. “Nothing Even Matters” é mais um dueto presente no álbum, desta vez Hill dividindo os vocais com o cantor D’Angelo, reeditando os duetos românticos dos áureos tempos da soul music. Falando de mudanças e da busca da realização dos nossos sonhos, "Everything Is Everything” traz a participação de John Legend, aos 19 anos, ao piano, ainda em início de carreira e bem antes da fama. Fechando o álbum, a bela “The Miseducation Of Lauryn Hill”, na qual Lauryn Hill declara que é ela quem define o seu próprio destino.

Na época de seu lançamento, The Miseducation Of Lauryn Hill foi muito bem recebido pela crítica de uma maneira geral. Um dos principais trunfos do álbum foi o fato de Lauryn seguir à margem do chamado gangsta rap, tendência que estava em voga no rap que fazia apologia à violência e que tornava o rap e a cultura hip hop malvistos como um todo. O álbum de Hill vai por um caminho oposto ao da bandidagem pregada pelo gansta rap ao falar sobre maternidade, família, consciência social, emancipação feminina e relacionamento afetivo.

The Miseducation Of Lauryn Hill teve um excelente e surpreendente desempenho comercial.  Na sua primeira semana de lançamento, o álbum vendeu mais de 400 mil cópias, ficando 1º lugar na parada da Billboard 200. Fo final de 1998, já havia alcançado a marca de 2 milhões de cópias vendidas.

Além das ótimas vendagens e da receptividade positiva da crítica, The Miseducation Of Lauryn Hill conquistou prêmios. Na premiação do Grammy de 1999, o álbum concorreu a dez indicações, conquistou cinco prêmios: “Álbum do Ano”, “Artista Revelação”, “Melhor Álbum de R&B”, “Melhor Canção de R&B” ( por “Doo Wop (That Thing)” )e “Melhor Performance Feminina de R&B” (por “Doo Wop (That Thing)” ).  Lauryn Hill se tornou a primeira mulher a ganhar cinco prêmios Grammy numa mesma noite de premiação. The Miseducation Of Lauryn Hill foi o primeiro álbum de hip-hop a receber o prêmio de “Álbum do Ano”.

The Miseducation Of Lauryn Hill não foi apenas um grande trabalho da carreira de Lauryn Hill. O álbum teve como méritos não só ter elevado a imagem do rap e da cultura hip como também o de ter aberto caminho para as mulheres terem acesso a eles. Se hoje rappers femininas como Iggy Azalea, Nicki Minaj, Azealia Banks, Karol Conka entre outras, têm brilhado no universo do hip hop, não seria exagero afirmar que uma parcela desse brilho tem um pouco da contribuição de Lauryn Hill com o seu The Miseducation Of Lauryn Hill.

Faixas:
  1. "Intro" (Lauryn Hill)
  2. "Lost Ones" (Lauryn Hill - Ché Guevara - Vada Nobles)
  3. "Ex-Factor" (Lauryn Hill)
  4. "To Zion"  (Lauryn Hill – Ché Guevara)
  5. "Doo Wop (That Thing)" (Lauryn Hill)
  6. "Superstar" (Lauryn Hill)
  7. "Final Hour" (Lauryn Hill)
  8. "When It Hurts So Bad" (Lauryn Hill)
  9. "I Used To Love Him" (Lauryn Hill)
  10. "Forgive Them Father" (Lauryn Hill)
  11. "Every Ghetto, Every City" (Lauryn Hill)
  12. "Nothing Even Matters" (participação D'Angelo) (Lauryn Hill)
  13. "Everything Is Everything" (Lauryn Hill - Johari Newton)
  14. "The Miseducation of Lauryn Hill" (Lauryn Hill - Tejumold Newton)

Ouça o álbum The Miseducation Of Lauryn Hill
na íntegra

sábado, 23 de setembro de 2017

“Álibi” (Philips, 1978), Maria Bethânia


Irmã de Caetano Veloso, Maria Bethânia já era uma grande cantora da música popular brasileira em meados dos anos 1970, com um talento reconhecido pela crítica muito por conta da sua voz grave e marcante, e pelos seus shows carregados de grande teatralidade. Porém, era uma cantora que não atingia as grandes massas. Seu público era bem restrito e específico, centrado na classe universitária e na elite intelectual fã de MPB. No entanto, essa situação começa a mudar a partir de 1976, quando Bethânia emplacou “Olhos nos Olhos”, composição de Chico Buarque, e que se tornou um grande sucesso na voz da cantora baiana de Santo Amaro da Purificação. O sucesso da música fez o álbum Pássaro Proibido, lançado naquele ano vender mais de 100 mil cópias e garantir a Bethânia o primeiro Disco de Ouro da sua carreira.

Ainda em 1976, Bethânia junta-se a Caetano, Gal Costa e Gilberto Gil, formando o supergrupo Doces Bárbaros. O quarteto faz uma turnê nacional que rende um documentário e um álbum duplo gravado ao vivo e que levou o nome do grupo. Isso ajudou a dar mais visibilidade a Bethânia. Em 1977, ganha o seu segundo Disco de Ouro com o álbum Pássaro da Manhã, comprovando que a popularidade da baiana estava em expansão.

Doces Bárbaros em 1976: Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gal Costa e Gilberto Gil.

Mas o grande salto na carreira de Maria Bethânia acontece com o álbum Álibi, lançado em dezembro de 1978. Diferente dos álbuns anteriores, Álibi trouxe canções que se tornaram grandes sucessos e que marcariam toda a carreira de Bethânia. O álbum abre com “Diamante Verdadeiro”, de Caetano Veloso, um choro dotado de certa nostalgia, remetendo aos antigos chorões do passado. A faixa seguinte é “Álibi”, um belo bolero dotado de muito romantismo composto por Djavan.

“O Meu Amor” traz um fato curioso. A canção foi originalmente composta por Chico Buarque para o espetáculo Ópera do Malandro que esteve em cartaz em 1978. No espetáculo, Marieta Severo (então esposa de Chico) e Elba Ramalho faziam um dueto cantando a música. As duas gravaram a canção para o álbum de Chico (ele não canta nessa faixa), lançado em novembro de 1978, um mês antes do lançamento do de Bethânia. Em seu álbum, Bethânia faz dueto em “O Meu Amor” com a sambista Alcione, que se saiu muito bem cantando um bolero. Com uma letra carregada de muita sensualidade e erotismo, “O Meu Amor” fala de duas mulheres que disputam o amor de um mesmo homem.

Alcione e Maria Bethânia em 1978, com o álbum de Chico Buarque, o mesmo
 que contém "O Meu Amor", regravada por elas para o álbum Álibi.

“A Voz Vitoriosa”, de Wally Salomão e Caetano Veloso, é uma bela homenagem à mulher, seguida de “Ronda”, de Paulo Vanzolini, um clássico da música brasileira gravado originalmente por Bola Sete em 1953, e que Bethânia conseguiu imprimir o seu estilo bem pessoal de cantar. Fechando o lado A, “Explode Coração”, de Gonzaguinha, uma canção que Bethânia fez um registro definitivo e ainda hoje insuperável.

Assim como “Ronda”, “Negue” é outra canção consagrada da música brasileira presente em Álibi, e é ela quem abre o lado B do álbum. Mesmo com dezenas de regravação que vão de Cauby Peixoto a Camisa de Vênus, o samba-canção composto por Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos, em 1960, ganhou a sua versão definitiva com Maria Bethânia. O samba “Sonho Meu”, de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho, traz mais um dueto no álbum, desta vez Bethânia com sua voz grave contrastando com os agudos de Gal Costa. Em “De Todas As Maneiras”, canção de amor de Chico Buarque, Bethânia canta os sentimentos do fim de um relacionamento conflituoso e desgastado. A canção seria regravada pelo próprio Chico no seu álbum Vida, em 1980.

Rosinha de Valença: talento onipresente
 em Álibi.
Fechando o álbum, “Interior”, composição da violonista Rosinha de Valença. A canção possui uma atmosfera bucólica nos versos, na gaita de Maurício Einhorn e no violão dedilhado de Rosinha de Valença, enquanto Bethânia canta com uma voz cheia de ternura.

Vale ressaltar a “onipresença” de Rosinha de Valença neste disco, ela tocou em todas as faixas. A instrumentista expôs no álbum todo o seu talento tanto no violão como no cavaquinho, mostrando a sua versatilidade, seja tocando samba (“Sonho Meu”), choro (“Diamante Verdadeiro”), bolero (“O Meu Amor”), bossa-nova (“Explode Coração”) ou samba-canção (“Negue”). Toda essa bagagem musical é fruto das experiências profissionais que Rosinha acumulou desde jovem, quando tocou com artistas do gabarito de Baden Powell, João Donato, Sérgio Mendes entre outros. Lamentavelmente, em 1992, Rosinha de Valença deixou a vida profissional muito cedo quando entrou em estado de coma após uma lesão cerebral, consequência de uma parada cardíaca que sofreu. Rosinha ficou em estado vegetativo por doze anos, vindo a falecer em 2004, aos 62 anos. 

Álibi foi o primeiro grande sucesso comercial de Maria Bethânia, alçando a cantora baiana do posto de artista cult a uma das cantoras campeãs de vendas de discos no Brasil e de execução em rádio. “Explode Coração”, “Sonho Meu” e “Negue” ganharam as rádios e levou Álibi a vender de 1 milhão de cópias, tornando Maria Bethânia a primeira cantora brasileira a atingir essa marca. O álbum seguinte, Mel, de 1979, seguiu os mesmos passos de Álibi, e foi também um grande sucesso em vendas, graças a faixas como a faixa-título, “Cheiro de Amor”, “Grito de Alerta”, “Da Cor Brasileira” e “Infinito Desejo”.

Faixas

Lado A

  1. "Diamante Verdadeiro"  (Caetano Veloso)
  2. "Álibi"(Djavan)
  3. "O Meu Amor" (dueto com Alcione) (Chico Buarque)
  4. "A Voz de Uma Pessoa Vitoriosa" (Waly Salomão - Caetano Veloso)
  5. "Ronda" (Paulo Vanzolini)
  6. "Explode Coração" (Gonzaguinha)

Lado B

  1. "Negue" (Adelino Moreira - Enzo Almeida Passos)
  2. "Sonho Meu" (dueto com Gal Costa) (Dona Ivone Lara - Délcio Carvalho)
  3. "De Todas as Maneiras" (Chico Buarque)
  4. "Cálice" (Gilberto Gil - Chico Buarque)
  5. "Interior" (Rosinha de Valença) 


Ouça o álbum Álibi na íntegra.

sábado, 16 de setembro de 2017

10 discos essenciais: glam rock


No começo dos anos 1970, John Lennon havia decretado que o sonho havia acabado. Toda aquela onda festeira do paz & amor hippie da década anterior era coisa do passado. Os Beatles haviam chegado ao fim, Janis, Hendrix e Morrison estavam mortos. A Guerra do Vietnã prosseguia – assim como a  Guerra Fria também – atentados terroristas pipocavam em vários cantos e ditaduras se alastravam pela América Latina. O mundo se mostrava mais sombrio. O rock se tornava mais burocrático  (com rock progressivo ditando virtuosismo ) e um negócio lucrativo.

Em meio a tudo isso surgia o glam rock ( rock glamour), trazendo um pouco mais de alegria, fantasia e androgenia. Também conhecido como glitter rock, o glam rock foi um fenômeno essencialmente inglês, mas que acabou se espalhando pelo mundo. Na nova tendência que despontava o visual era tão importante quanto a música. E valia tudo, maquiagens pesadas, muita purpurina, plumas, paetês, sapatos plataforma e os figurinos mais espalhafatosos que pudesse imaginar. Musicalmente era bem diversificado, englobando desde hard rock ao pop descartável. O glam rock caiu no gosto do público jovem, principalmente o adolescente, emplacou grandes astros talentosos como David Bowie, T. Rex, Elton John, Mott The Hoople, Slade, Sweet, mas também alguns aproveitadores de plantão que costumam pongar no que está na moda.

Mesmo tendo durado um prazo curto, entre 1971 e 1975, o glam rock deixou o seu legado: influenciou o punk, os neorromânticos (leia-se Adam & The Ants, Culture Club, Duran Duran, Visage entre outros), glam metal dos anos 1980 (Mötley Crüe, Bon Jovi, Poison e mais dezenas de bandas) e bandas mais contemporâneas com Marilyn Manson, The Darkness, Placebo e Suede.

Neste “10 Discos Essenciais”, confira alguns dos álbuns mais emblemáticos do glam rock.

Electric Warrior (Fly, 1971), T. Rex. Entre 1967 e 1970, a Tyrannosaurus Rex era uma banda de sonoridade folk que tinha à frente o guitarrista e vocalista Marc Bolan e o percussionista Steve Peregrine Took. Mas em 1970, Bolan deu uma grande guinada na banda: troca Took por Mickey Finn, o som do grupo fica mais elétrico carregando referências de Chuck Berry, rhythm´n´blues e hard rock, adota um visual mais extravagante e abrevia o nome da banda para T.Rex. Com o álbum Electric Warrior, o T.Rex ganha projeção na Inglaterra e inaugura a era do glam rock. Marc Bolan se torna a própria personificação do glam rock. "Bang A Gong (Get It On )" foi o grande hit do album.


The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars (RCA, 1972), David Bowie. David Bowie já tinha quatro álbuns no currículo, dois deles, The Man Who Sold The World (1970) e Hunky Dory (1971) com algum reconhecimento da crítica, mas sem grade repercussão comercial. Foi então que em 1972, lançou The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars, no qual Bowie encarnou Ziggy Stardust, um extraterrestre que vem à Terra e se tornar um astro do rock. Com um visual andrógino e o cabelo laranja, Bowie virou ídolo de toda uma geração e conquistou finalmente a fama que tanto almejava. O álbum se tornou um clássico graças a hits como "Starman", "Ziggy Stardust" e “Rock 'n' Roll Suicide", e também a uma banda "matadora" por trás de Bowie, os Spiders From Mars, que contava com o guitar hero  Mick Ronson.


All The Young  Dudes (CBS, 1972), Mott The Hoople. Após os quatro primeiros álbuns que foram um fracasso em vendas, o Mott The Hoople decidiu encerrar atividades em 1971. Sensibilizado, entrou em cena David Bowie que decidiu ajudar a banda convencendo os seus membros a retornarem com o grupo. Para isso, Bowie e seu guitarrista, Mick Ronson, produziram o álbum All The Young Dudes, cuja faixa-título é de autoria do próprio Bowie. All The Young Dudes se tornou o primeiro grande sucesso comercial do Mott The Hoople e que traz ainda rocks afiados como “One Of The Boys”, “Jerkin' Crocus”, "Ready For Love/After Lights" e uma regravação de um hit do Velvet Underground, "Sweet Jane".


Roxy Music (Island, 1972), Roxy Music. O Roxy Music foi talvez a banda mais estilosa do glam rock, tanto visualmente quanto musicalmente, centrando-se entre a sofisticação e a breguice, entre a vanguarda e o pop convencional. Todas essas combinações antagônicas estão presentes no primeiro álbum da banda inglesa. Roxy Music, o álbum, surpreende pela qualidade, criatividade e o talento de seus integrantes, destacando o tecladista Brian Eno e o saxofonista Andy Mackay. "Re-Make/Re-Model", faixa na qual a banda combina solos de “Day Tripper”, dos Beatles, e “A Cavalgada das Valquírias”, de Richard Wagner, só comprova o poder criativo dos músicos do Roxy Music.


Transformer (RCA, 1972), Lou Reed. Apesar de estar vivenciando a fama da sua fase Ziggy Stadust, David Bowie reservava um tempinho para ajudar os amigos em 1972. Deu uma força na reabilitação da carreira do Mott The Hoople e fez o mesmo com o ex-Velvet Underground, Lou Reed, que vinha de um homônimo e pouco expressivo álbum de estreia solo em 1971. Ao lado do seu fiel escudeiro, o guitarrista Mick Ronson, Bowie produziu o segundo álbum de Reed, Transfomer, considerado o melhor de sua carreira solo. Admiradores confessos de Reed e do Velvet Underground, Bowie e Ronson além de produzirem o álbum, tocaram alguns instrumentos e fizeram alguns backing vocals. Transformer traz faixas memoráveis como "Walk On The Wild Side" (maior sucesso de Reed), “Vicious” e as lindas “Perfect Days” e “Satellite Of Love”.


Mott (CBS, 1973), Mott the Hoople. Ao produzir o álbum anterior, All The Young  Dudes, David Bowie deu o empurrão para que o Mott The Hoople conquistasse o tão desejado prestígio. Amparados pelo sucesso de All The Young  Dudes e mais confiantes no próprio potencial, o Mott The Hoople gravou e produziu o álbum seguinte, Mott, que teve boa recepção tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos. O álbum emplacou as faixas "All The Way From Memphis" e "Honaloochie Boogie". Mas também trouxe coisas bacanas como os rocks certeiros “Drivin' Sister" e “Violence”, e o folk rock "I Wish I Was Your Mother". 


New York Dolls (Mercury, 1973), New York Dolls. Imagine bater no liquidificador os Rolling Stones e adicionar uma porção de travestis: a mistura certamente daria New York Dolls. Com seu visual andrógino, postura irreverente e seu som anárquico e debochado, os New York Dolls anteciparam o punk rock e foram referência para a cena underground nova-iorquina de meados dos anos 1970 que revelaria ao mundo os Ramones, Blondie, Television e Talking Heads. O seu primeiro e homônimo álbum, capturou muito bem a energia transgressora e urgente da banda que podem ser percebidas em faixas como “Personality Crisis” e “Frankenstein (Orig.)”.  Os sinais de que o punk estaria por vir estão presentes em “Bad Girls” e “Jet Boys”.


Secos & Molhados (Continental, 1973), Secos & Molhados. O Brasil não ficou de fora da onda glam que assolou o rock no começou dos anos 1970. O grupo Secos & Molhados foi o nosso melhor representante do gênero e um dos maiores fenômenos da música brasileira em todos os tempos. Em plena ditadura militar no Brasil, o grupo surgia causando um impacto visual com seus integrantes de rostos pintados, figurinos andróginos e tendo à frente Ney Matogrosso, um vocalista com uma voz aguda, peito nu e corpo esguio. Com um repertório que mistura folk rock, rock progressivo, pop, MPB e letras com forte carga poética, Secos & Molhados, o disco, foi um fenômeno em vendas, chegando a um milhão de cópias, conquistando desde o público adulto até o infantil, e se tornando um dos mais importantes álbuns da história do rock brasileiro. A capa é talvez a mais marcante da música brasileira. “Sangue Latino”, “O Vira”, “Amor” e “Rosa de Hiroshima” foram os grandes hits do álbum.


Aladdin Sane (RCA, 1973), David Bowie. David Bowie compôs o repertório que daria origem ao álbum Aladdin Sane durante a passagem da Ziggy Stardust Tour pelos Estados Unidos, em 1972, com canções inspiradas nas suas observações sobre a América. Por isso que há quem diga que Aladdin Sane é um desdobramento de Ziggy Stardust. Com uma das capas mais icônicas da cultura pop, Aladdin Sane tem como destaque a faixa-título, “Panic In Detroit”,  “The Jean Genie” e um cover mais energético de  “Let's Spend The Night Together”, dos Rolling Stones.



Goodbye Yellow Brick Road (DJM, 1973), Elton John. Elton John vinha numa sequência de bons álbuns como Madman Across The Water (1971), Honky Château (1972) e Don't Shoot Me I'm Only The Piano Player (1973) até se consagrar com o álbum duplo Goodbye Yellow Brick Road, em 1973. O álbum ratifica o alto nível da parceria Elton John-Bernie Taupin como hitmakers, já mostrado nos álbuns anteriores. Goodbye Yellow Brick Road tem um “cardápio musical” variado, incluindo desde pop radiofônico a incursões no rock progressivo. Graças a hits antológicos como a faixa título, “Candle In The Wind”, “Bennie And The Jets”, “Saturday Night's Alright For Fighting” e à quilométrica “Funeral For A Friend/Love Lies Bleeding”, o álbum duplo vendeu mais de sete milhões de cópias. Elton John alcança o status de astro de rock de primeira grandeza lotando estádios e arenas pelo mundo, se apresentando com figurinos extravagantes e os famosos óculos dos formatos mais estranhos.