“Caetano Veloso” (Philips, 1968), Caetano Veloso


Em 1967, os baianos Gilberto Gil e Caetano Veloso terminaram o 3º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record de forma brilhante e inovadora. Acompanhado da banda Os Mutantes, Gilberto Gil conquistou o 2º lugar com “Domingo no Parque”. Caetano Veloso, apoiado pela banda argentina radicada no Brasil, Beat Boys, ficou em 4º lugar com “Alegria, Alegria”. Os grandes vencedores daquele festival foram Edu Lobo, Marília Medalha e o grupo Quarteto Novo com a música “Ponteio”. Chico Buarque e MPB-4 ficaram em 3º lugar com “Roda Viva”.

Os quatro primeiros colocados daquela edição do festival e suas canções representavam muito bem a situação divisória em que a música brasileira havia chegado. Edu Lobo e Chico Buarque representavam a ala tida como conservadora e nacionalista da música brasileira. Gil e Caetano eram a personificação do moderno, a ruptura com uma maneira antiga e limitada de se produzir música popular.

O desempenho dos dois baianos, acompanhados de bandas de rock e cantando músicas com arranjos completamente estranhos a base de guitarras elétricas, chocaram o público conservador e nacionalista, mas conquistaram uma outra faixa de público, aberta a um tipo de música mais transgressora. Através de “Domingo no Parque” e “Alegria, Alegria”, Gilberto Gil e Caetano Veloso anunciavam ali naquele festival que haviam chegado para mudar as estruturas da música popular brasileira, propondo algo novo, revolucionário, sem temer os ataques da ala mais nacionalista da nossa música que não tolerava influências “alienígenas”. Estavam lançadas as bases do que em pouco tempo seria conhecido como Tropicalismo.

Caetano Veloso e os Beat Boys no 3º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, em 1967.

Após o fim do festival, a gravadora Philips lançou no mercado o compacto de “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil, e de “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso. O compacto de “Alegria, Alegria” vendeu mais de 100 mil cópias, e a música teve ótima execução em rádio, provando que o sucesso da canção não estava restrito ao festival. A popularidade de “Alegria, Alegria” havia transformado Caetano Veloso num pop star, com direito até a fã clube e apresentações nos programas de TV, como o de Chacrinha, e o Jovem Guarda, comandado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa.

Para aproveitar o rastro do sucesso de Gil e Caetano no festival, a Philips decidiu lançar um novo álbum individual de cada um deles no mercado. Só que desta vez, os novos trabalhos seguiriam orientações diferentes dos trabalhos anteriores. Louvação, primeiro álbum de Gil, e Domingo, álbum de estreia de Caetano dividido com Gal Costa, lançados no começo de 1967, eram tradicionais, totalmente influenciados pela bossa nova, e nada tinham a ver com as novas propostas estético-musicais dos baianos.

Caetano Veloso buscando inspiração em Sgt. Pepper's
Lonely Hearts Club Band
, dos Beatles.
Depois que ouviram o álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Clube Band, obra-prima lançada pelos Beatles em 1967, Gil e Caetano haviam encontrado uma nova orientação musical e buscavam agora conectar as inovações da música pop internacional da época com a música brasileira. Puseram isso em prática com as canções que defenderam no 3º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, mas aquilo que fizeram era só o começo.

Caetano saiu na frente, entrou em estúdio para gravar o seu primeiro álbum solo por volta de novembro de 1967, enquanto que Gilberto Gil só faria o mesmo no começo do ano seguinte. Para as gravações de seu primeiro álbum, Caetano estava completamente focado em produzir um trabalho ousado, inovador, comparável aos discos vanguardistas da música pop internacional como o próprio Sgt. Pepper’s, dos Beatles, sua grande inspiração.

O baiano convocou três maestros renomados para fazer os arranjos das faixas do álbum, Júlio Medaglia, Damiano Cozzella e Sandino Hohagen, e a eles distribuiu as canções que cada um iria arranjar. Medaglia, Cozzella e Hohagen, ao lado dos também maestros Rogério Duprat e Gilberto Mendes, integraram o movimento vanguardista Música Nova no começo dos anos 1960, que propunha uma ruptura com os velhos padrões dentro da música erudita em favor de uma proposta musical nova, influenciada pela música aleatória, música concreta e pelas vanguardas europeias.

A produção ficou a cargo do jovem produtor Manoel Barenbein, na época com 25 anos de idade, e que havia trabalhado na gravadora RGE, onde começou a carreira produzindo discos de artistas como Chico Buarque e Toquinho. Para as gravações, Caetano contou com o acompanhamento das bandas Beat Boys, RC-7 (banda de apoio de Roberto Carlos), Os Mutantes e o Musikantiga, esta última, mais voltada à música acústica e erudita.

“Tropicália” é a faixa que abre o álbum. O título da música foi uma sugestão do cineasta Luíz Carlos Barreto, após Caetano mostrar-lhe a letra da canção que ainda não tinha nome. Barreto percebeu que o conteúdo da letra tinha tudo a ver com uma obra do artista plástico Hélio Oiticica que estava em exposição na época, e que se chamava Tropicália. Até então, Caetano ainda não conhecia Oiticica e sua arte, mas deu o título provisoriamente de “Tropicália” à música enquanto não achava outro melhor. Acabou ficando esse mesmo.

Com arranjos magistrais de Júlio Medaglia e uma força poética incrível nos versos de Caetano, “Tropicália” tem como introdução um discurso falando sobre Pero Vaz de Caminha e o Descobrimento do Brasil: “Quando Pero Vaz de Caminha / Descobriu que as terras brasileiras / Eram férteis e verdejantes / Escreveu uma carta ao rei: Tudo que nela se planta, Tudo cresce e floresce / E o Gauss da época gravou”. O tal discurso foi feito a partir de uma brincadeira do percussionista Dirceu que estava ao microfone, e que a pedido de Medaglia ao técnico de som, Rogério Gauss, foi gravado sem o músico perceber. O Gauss citado no discurso introdutório era o tal técnico de som. “Tropicália” é uma música cheia de referências sobre a cultura brasileira, dentre elas Iracema (do romance de José de Alencar), Ipanema (“Garota de Ipanema”, canção de Vinícius de Moraes e Antônio Carlos Jobim), Fino da Bossa (programa da TV Record, de Elis Regina e Jair Rodrigues), Roberto Carlos e a Jovem Guarda (no verso “Que tudo mais vá pro inferno / meu bem”) e Carmem Miranda. “Tropicália” acabou batizando o movimento liderado por Caetano e Gil, e que transformaria por completo a música brasileira.

Tropicália: instalação criada pelo artista plástico Hélio Oiticica em 1967, e que batizou o movimento tropicalista.

“Clarice”, a faixa seguinte, poderia muito bem ter integrado o álbum bossa-novista Domingo. A canção é sobre uma jovem garota pacata e misteriosa. Tem arranjos de Medaglia e é dotada de uma melancolia melódica, “No Dia Que Eu Vim-me Embora” trata sobre o jovem que deixa a terra natal e busca uma vida melhor da cidade grande, mesmo que isso signifique romper o “cordão umbilical” familiar.  

Após conquistar o 4º lugar no Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, “Alegria, Alegria” havia sido lançada em single pela Philips, e assim como no festival, fez um enorme sucesso nas rádios. Não havia dúvidas da sua inclusão no álbum. “Alegria, Alegria” nada mais é do que uma marcha lenta de Carnaval plugada nas guitarras do rock psicodélico, e que traz nos seus versos, uma colagem de símbolos da cultura de massa (Coca-Cola, Brigitte Bardot, televisão, telefone, fotos...) criando na mente do ouvinte, uma espécie de “vídeo clipe mental”.

“Onde Andarás” teria sido um pedido de Maria Bethânia, irmã de Caetano Veloso, ao poeta Ferreira Gullar para escrever uma letra para uma canção de “dor-de-cotovelo”, cafona para ela gravar. A letra foi musicada por Caetano e acabou sendo gravada por ele mesmo, num ritmo que alterna bolero e samba-canção. A faixa seguinte, “Anunciação”, composta por Caetano Veloso e pelo artista gráfico tropicalista Rogério Duarte, tem uma letra estranha e assustadora, onde um pai sonha com um filho que ainda nem nasceu, mas que viria matar a ele e à sua esposa.

Em “Superbacana”, Caetano conta com o acompanhamento da RC-7, banda de apoio de Roberto Carlos. Com a ideia fixa de ser acompanhado por uma banda de rock para defender “Alegria, Alegria” no Festival da TV Record, Caetano havia pensado na RC-7, mas os compromissos da banda com Roberto impediram que a ideia fosse adiante. Para o álbum, Caetano fez um novo convite à RC-7, desta vez para acompanhá-lo na faixa “Superbacana”, canção cheia de referências de histórias-em-quadrinhos ( Tio Patinhas, Super-Homem, o super amendoim do Super Pateta) e alusões ao que é moderno, poderoso e veloz (avião supersônico, poder atômico, parque eletrônico). No final da música, Caetano cita a frase “Um instante, maestro!”, um bordão popularizado pelo apresentador de TV, Flávio Cavalcanti. Caetano estava sendo irônico, era uma provocação a Flávio, que havia acusado o cantor de fazer apologia ao uso do LSD em “Alegria, Alegria”. Havia circulado um boato na época do festival que o verso “Sem lenço, sem documento”, seria uma mensagem cifrada ao LSD (Lenço Sem Documento), o que foi desmentido por Caetano. A canção quase foi censurada para o festival. 

Tio Patinhas e Super-Homem: as história-em-quadrinhos exerceram
influência nas obras do Tropicalismo.

“Paisagem Útil” traz arranjos de Júlio Medaglia em ritmo de marcha-rancho (uma marcha carnavalesca em andamento arrastado), e faz citações da paisagem urbana do Rio de Janeiro. Em “Clara”, Caetano faz dueto com Gal Costa revivendo Domingo, álbum em que os dois gravaram juntos.

“Soy Loco Por Ti, América”, parceria de Gilberto Gil e José Carlos Capinam, é uma homenagem velada a Che Guevara, um dos líderes da Revolução Cubana, morto em outubro de 1967, pouco tempo antes de Caetano entrar em estúdio para gravar o álbum. Apesar de não citar o nome de Che, os versos da canção dão pistas de que se trata dele: “El nombre del hombre muerto / Ya no se puede decirlo, quién sabe?”. A deliciosa base instrumental foi feita pelos Beat Boys em ritmo de música caribenha.

Na sequência, “Ave Maria”, composta por Caetano em latim, é uma oração em forma de canção, com belos arranjos do maestro Sandino Hohagen. Fechando o álbum, “Eles”, que começa com um som curto de música indiana, que após uma pausa segue num ritmo que lembra um baião psicodélico, costurado por intervenções de um órgão Hammond. A música ganha uma perfeita combinação entre a sonoridade regionalista com o universalismo da música pop praticada na época. A letra da canção seria uma crítica à elite moralista, bem como à própria esquerda. É sempre bom lembrar que tanto a esquerda como a direita tinham visões diferentes e equivocadas sobre os tropicalistas. Enquanto a esquerda acreditava que os tropicalistas eram “entreguistas” e “americanizados”, a direita achava que o Tropicalismo era um movimento feito por comunistas. 

Intitulado Caetano Veloso, o álbum chegou às lojas em janeiro de 1968, sendo assim considerado o primeiro álbum tropicalista. A arte da capa, dentro de uma estética tropicalista psicodélica, ficou a cargo de Rogério Duarte, artista gráfico baiano de Ubaíra, e um dos membros fundadores do movimento tropicalista. A foto de Caetano na ilustração é de autoria do fotógrafo David Drew Zingg.

Exemplares do primeiro álbum de Caetano Veloso numa vitrine de uma loja de discos, em 1968.

Apesar de Caetano ter achado que musicalmente ficou aquém do que ele imaginava, o álbum foi bem recebido pela crítica, e mostrava que além de trazer a já conhecida “Alegria, Alegria”, o trabalho trazia outras “cartas na manga” como a épica “Tropicália”, e cumpria o papel “antropofagista” defendido pelo nascente movimento tropicalista. Incluída no álbum, “Alegria, Alegria” ratificou a sua popularidade conquistada no festival e com o single anteriormente, enquanto “Superbacana” e “Soy Loco Por Ti, América” tornaram-se sucessos radiofônicos.

Com o lançamento do primeiro álbum solo de Caetano Veloso, o pavio tropicalista foi aceso. O Tropicalismo como movimento ganhava projeção, e abria caminho para o lançamento de álbuns de outros artistas tropicalistas como Gilberto Gil, Mutantes, Gal Costa e Tom Zé. Em julho de 1968, era lançado Tropicália Ou Panis Et Circensis, o álbum-manifesto tropicalista, um trabalho coletivo que contou com todos os artistas tropicalista e que resumiu muito bem a proposta musical daquele movimento.

Passados 50 anos desde o seu lançamento, o álbum de estreia de Caetano Veloso mostrou ao longo do tempo a sua relevância como obra musical de um movimento importante para a música popular brasileira. A edição brasileira da revista Rolling Stone colocou o homônimo álbum de estreia de Caetano Velos em 37º lugar na lista d’Os 100 Maiores Discos Da Música Brasileira.

Faixas

Lado A

  1. Tropicália (Caetano Veloso)
  2. Clarice (Caetano Veloso - José Carlos Capinam)
  3. No Dia Que Eu Vim-me Embora (Caetano Veloso - Gilberto Gil)
  4. Alegria, Alegria (Caetano Veloso)
  5. Onde Andarás (Caetano Veloso - Ferreira Gullar)
  6. Anunciação (Caetano Veloso - Rogério Duarte)
Lado B

  1. Superbacana (Caetano Veloso)
  2. Paisagem Útil (Caetano Veloso)
  3. Clara (Caetano Veloso - Perinho Albuquerque), participação de Gal Costa
  4. Soy Loco Por Ti, América (Gilberto Gil - José Carlos Capinam)
  5. Ave Maria (Caetano Veloso)
  6. Eles (Caetano Veloso - Gilberto Gil)

Ouça na íntegra o álbum Caetano Veloso

Comentários

  1. Um dos melhores discos do Caetano,adoro e,a crítica ficou supimpa,muito bem escrita.

    ResponderExcluir
  2. Segundo Júlio Medaglia,a notícia da morte de Che Guevara chegou durante a gravação do álbum,portanto,a citação é exata.

    ResponderExcluir
  3. ''Caetano,Gil,Mutantes,Gal e Tom Zé,ainda bem que não citou Maria Bethânia como cantora tropicalista,há quem o coloque dentro do movimento,eu acho um erro.

    ResponderExcluir

Postar um comentário